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Moro em Silicon Valley na Califórnia e aqui o tema do “futuro do trabalho” (future of work) é um dos temas do dia. Em Portugal, sinto que ainda não é um tema muito falado e levantado, muito talvez por estarmos ainda a iniciar políticas de trabalho flexível e digital, e longe da realidade profissional deslocalizada que já se vive nos Estados Unidos.

No entanto, considero ser essencial falar de futuro. Desde que comecei a estudar Futurismo no Institute For The Future que levo este tema muito a sério.

Primeiro, as aprendizagens que tenho feito, tanto de futurismo como de “learn learning how to learn” (como aprender a aprender), levaram-me a destruir várias limitações que eu tinha na minha própria mente.

Antes de ir a essa parte, falemos do facto de não aprendermos a aprender enquanto adultos. Uma das minhas maiores lacunas e que estou agora apenas a trabalhar, é precisamente a dificuldade em aprender.

Mesmo tendo aprendido muitas das minhas competências profissionais sozinha, por “conta própria” e de forma autodidata, comecei a sentir recentemente que não sabia aprender de uma forma focada e propositada.

Juntar a aprendizagem do Futurismo e o meu interesse pela temática da aprendizagem, levou-me a que me conseguisse focar em aprendizagens que fossem realmente relevantes para o meu futuro e que me permitissem adaptar ao futuro do trabalho.

Parei de dizer que o trabalho remoto é o futuro do trabalho

Uma das limitações que eu tinha (e que ainda trabalho diariamente para melhorar), era por vezes manifestar a minha opinião como um facto; a minha experiência como uma verdade. E quando trabalhamos no digital e com criação de conteúdo, isto é algo com o qual temos que ter muito, muito cuidado.

Desde então, que faço um esforço redobrado para separar bem, sobretudo linguisticamente falando, as minhas opiniões de factos.

Eu não posso dizer que o trabalho remoto é o futuro do trabalho. Posso dizer que o trabalho remoto é uma tendência crescente – e que se prevê que seja uma peça importante no modelo de trabalho no futuro.

Previsões baseadas em tendências podem ser provadas e são factuais. Posições baseadas numa ideia de futuro, são apenas e só especulações.

“Mas Krystel, isso significa que não acreditas que o trabalho remoto é o futuro do trabalho?”

Falemos então da minha opinião. Desde que iniciei os meus estudos de futurismo, que me centrei muito na temática do trabalho e da adaptabilidade.

Os dados sobre o trabalho remoto não enganam:

  • Nos Estados Unidos, a percentagem de pessoas que trabalha a partir de casa aumentou 173% desde 2005 1
  • 69% dos managers millennials (pessoas nascidas entre 1981 e 1996) têm membros das suas equipas a quem é permitido trabalhar remotamente 2
  • 73% das equipas terá trabalhadores remotos em 2028 3

Mas em Portugal, também já começamos a ter alguns dados para analizar. Um estudo da Polar Insight4 em Portugal mostra que 97.4% dos trabalhadores valoriza a flexibilidade no trabalho, sobretudo para estar com a família e explorar interesses pessoais. Mas que 61.1% dos inquiridos são obrigados a estar presente nas instalações do seu local de trabalho no horário de trabalho e 48.9% têm horários fixos de entrada e saída.

A abertura para oportunidades profissionais e académicas no estrangeiro, está a fazer, segundo este estudo, que os novos profissionais portugueses cheguem a Portugal com maior confiança para propor não só melhorias salariais, como também colocam o trabalho remoto e flexível em cima da mesa.

Falar (apenas) de trabalho remoto será a solução?

Mas ao existir tanta gente a dizer que o trabalho remoto é o futuro do trabalho, estamos a excluir automaticamente vários tipos de pessoas para quem o trabalho remoto não é a melhor solução.

As pessoas têm ciclos de aprendizagem, de trabalho e de motivação diferentes. Cada pessoa tem a sua personalidade. Há pessoas mais extrovertidas e outras mais introvertidas. Existem profissionais que necessitam de um contexto profissional para estarem produtivos, enquanto outros conseguem trabalhar num comboio em movimento.

Uma das tendências em crescimento no panorama profissional é a temática do self awareness. Estarmos conscientes do que precisamos e queremos para estar produtivos e felizes.

O que espero do futuro do trabalho, e que gostaria que já fosse o presente de muita gente, é que seja um futuro em que a preocupação central seja oferecer aos profissionais o que eles precisam para fazer o seu melhor trabalho.

O modelo de trabalho deveria moldar-se mais à volta das necessidades dos profissionais e menos à volta das expetativas que as empresas têm.

Se existem pessoas que querem trabalhar sempre remotamente, outras talvez queiram só fazê-lo de vez em quando e outras talvez prefiram criar uma barreira real, física e contextual entre a sua vida pessoal e profissional.

Políticas de trabalho remoto mal implementadas

Uma das reflexões que tenho ouvido em várias meetups e eventos profissionais aqui em Silicon Valley é precisamente o facto de muitas empresas começarem uma política de trabalho remoto sem terem como preocupação central as necessidades dos seus profissionais.

Implementam o trabalho remoto porque “é o futuro”. Porque soa bem. Mas implementar o trabalho remoto numa empresa (ou até começar uma empresa que seja 100% remota logo de início) não é algo fácil. Envolve processos e políticas que muitos fundadores e responsáveis não pensam nem trabalham desde o início.

Um estudo da Igloo5 mostra que mais da maioria dos empregados remotos sente que a tecnologia das empresas faz com que sejam deixados de lado. 57% dos inquiridos dizem que sentem que já perderam alguma informação importante por não existir comunicação presencial. 55% dos inquiridos dizem que já foram excluídos ou afastados de alguma reunião ou sessão de brainstorm por serem trabalhadores remotos.

Os desafios do trabalho remoto são reais, e não basta as empresas quererem implementar uma política remota porque está na moda e porque é aparentemente “o futuro”.

Nem vou entrar na questão dos desafios individuais, como o isolamento ou a dificuldade de evolução pessoal. Esses poderiam até surgir num artigo mais pessoal, porque como alguém que trabalha por conta própria há cinco anos, lido com vários desses desafios diariamente.

“Não basta as empresas quererem implementar uma política remota porque está na moda e porque é aparentemente “o futuro”

Então como será o futuro do trabalho?

O futuro do trabalho, ou pelo menos um dos cenários que estou ativamente a trabalhar para implementar na minha vida, é um futuro onde o trabalho remoto existe sim, mas como uma peça integrante do mundo profissional. Não como um substituto do modelo tradicional, mas como uma alternativa e opção normal. Tal como ir ao escritório, escolher ficar em casa ou viajar para outro sítio será e deverá ser normal.

Um dos estudos que vai muito de encontro a esta minha opinião, é o “The Future is Flexible – The Importance of Flexibility in the Modern Workplace6. A empresa responsável por este estudo, a Werk, ajuda negócios a melhorar a experiência, produtividade e trabalho dos seus profissionais através de políticas de trabalho flexíveis.

Segundo o site da Werk, um trabalho flexível é um trabalho com aspetos que podem ser modificados/adaptados pelo próprio profissional. Esses aspetos são seis:

  1. Desk Plus”: variedade de localização (poder trabalhar em outros locais que o escritório da empresa – ou seja, poder alternar entre o escritório e outros locais à escolha)
  2. “Timeshift”: horas não convencionais (organização do horário de trabalho pelo profissional)
  3. “Parttime”: horas reduzidas (escolha do profissional de trabalhar menos horas)
  4. “Travellite”: viagens mínimas (redução de viagens de negócios, com o uso de reuniões virtuais)
  5. “Microagility”: liberdade de adaptação (possibilidade de o profissional poder fazer ajustes no seu próprio dia de trabalho)
  6. “Remote”: independência na localização (trabalho totalmente remoto e deslocalizado)

A Werk afirma que o funcionário médio precisa de ter acesso a 2.5 tipos de flexibilidade – ou seja, nem todos precisamos de mexer com todos estes aspetos acima.

Se calhar alguém quer trabalhar sempre num escritório, mas pode querer implementar uma política de horas reduzidas e não convencionais. Outra pessoa pode querer estar 100% remoto, mas fazer trabalho em “horário comercial”.

Segundo a Werk, os aspetos de flexibilidade mais procurados pelos trabalhadores são o DeskPlus e o Microagility, e só depois o remoto. Nem toda a gente quer trabalhar sempre remotamente. Mas parece que toda a gente quer mais flexibilidade para poder trabalhar fora do escritório, se quiser.

Um dado curioso, que vai muito de encontro a esta questão da flexibilidade, é o estudo da Buffer7 que mostra que o maior benefício apontado para se trabalhar remotamente não é, curiosamente, o de poder trabalhar a partir de qualquer lugar do mundo… mas sim o de ter um horário flexível e adaptável!

Conclusão

Não sei como vai ser o futuro, ninguém consegue prevê-lo. O que é no entanto importante hoje é conseguires olhar para todas estas realidades que já estão a acontecer, e criares o máximo de cenários possível para o teu próprio futuro.

Quantas mais possibilidades de futuros colocares em cima da tua mesa, mais ações poderás começar a tomar hoje para te adaptares a muitos deles e conseguires controlar o teu próprio trabalho. Isso vai fazer com que, qualquer que seja o modelo do trabalho de futuro, estejas mais preparado que a grande maioria das pessoas.

Afinal, se não tomares controlo do teu trabalho agora, alguém vai decidir por ti como será o teu futuro.

  1. https://globalworkplaceanalytics.com/telecommuting-statistics
  2. https://www.upwork.com/press/2019/03/05/third-annual-future-workforce-report/
  3. https://www.upwork.com/press/2019/03/05/third-annual-future-workforce-report/
  4. https://flex-pt.webflow.io/portuguese
  5. http://igloosoftware.lookbookhq.com/resourcespage/report-igloo-digital
  6. https://werk.co/research
  7. https://buffer.com/state-of-remote-work-2019
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