Clubhouse: vamos falar sobre a nova rede social?

Clubhouse - Aplicação para iPhone

Índice

O Clubhouse é a nova tendência das redes sociais. Surgiu em 2020 e está a tornar-se a aplicação mais desejada e utilizada de 2021. Mas o que é esta rede social?

O que é o Clubhouse?

O Clubhouse é uma aplicação baseada em áudio em que, basicamente, podes entrar em salas onde outras pessoas estão a falar. Se não fores moderador, podes “levantar a mão” e ter a oportunidade de intervir, fazer alguma pergunta ou partilhar uma reflexão.

Podes procurar salas dentro dos temas que te interessam (existe uma lista de interesses que podes selecionar no teu perfil) ou podes procurar pessoas e personalidades e segui-las diretamente. Assim, recebes a notificação de quando elas estiverem numa sala pública.

O Clubhouse é uma aplicação disponível apenas para iPhones… por enquanto. Tornou-se muito desejada porque só consegues entrar se tiveres um convite de alguém que já é utilizador. Sobre os convites, já lá vamos…

O que faz do Clubhouse algo tão incrível?

O conceito de salas por voz não é original. Se falarmos dos iPhones, isso já é possível fazer com o FaceTime. No WhatsApp também podemos fazer isso. De qualquer das formas, acredito que o grande herói deste tipo de conteúdos até seja o Discord, que foi uma das grandes revoluções nesse sentido.

O que difere o Clubhouse destas aplicações é o sentimento de comunidade. Se essa comunidade acontece? Talvez não, talvez sim. Depende dos intervenientes. O facto de através de poucos cliques poderes estar numa sala com “os teus pares” pode fazer com que te sintas parte da tribo.

Como é o Clubhouse por dentro?

Um ponto positivo que dou à aplicação é a experiência de utilização. É muito simples e fácil de entender.

Comecemos pelo perfil. O que podemos editar não é muito. Podemos editar:

  • o nome de utilizador;
  • a foto; e
  • a descrição do perfil.

Podemos adicionar o Twitter e o Instagram, se assim o quisermos.

Depois, na página inicial, podemos:

  • entrar numa sala (entramos sempre com o microfone desligado);
  • criar uma sala;
  • ver se algum dos nossos contactos (alguém que seguimos e que também nos segue) está online;
  • pesquisar pessoas ou salas.

Quando estamos dentro de uma sala, podemos:

  • ouvir o que estão a dizer os speakers daquela sala (quem tem o microfone ligado);
  • “levantar a mão” para intervir e nos tornarmos intervenientes na conversa;
  • ver o perfil dos speakers, dos moderadores da sala e de qualquer pessoa ali presente.

É como um podcast? Não…

Há quem compare o Clubhouse a uma espécie de podcast, em que, se nos derem a oportunidade, podemos interagir com os oradores. Apesar de perceber a comparação, não me identifico com ela. Deixa-me explicar-te porquê.

Um podcast eu posso ouvir novamente. É um ativo. É algo que posso ir relembrar. Como o Shane Parrish (fundador do projeto Farnam Street e do podcast The Knowldege Project) disse recentemente numa sala que estive a ouvir no Clubhouse, os podcasts podem estar ativos durante vários anos, se forem criados tendo por base a agregação de valor e não apenas seguindo a base da tendência e da notícia.

Claro que se pode gravar à socapa as conversas do Clubhouse, mas não é esse o comportamento nativo da aplicação.

Eu gosto de comparar o Clubhouse a uma conferência (que não seja gravada). Ou, como o Mário Rui André e o João Ribeiro disseram melhor: é uma espécie de “Web Summit” das aplicações móveis. Ou seja, vamos e ouvimos as pessoas e, se tivermos sorte, podemos colocar uma pergunta ao microfone; podemos conhecer pessoas nos intervalos das palestras e sessões, se estivermos inclinados para isso, ou podemos apenas ir à conferência para ouvir os oradores. Quando estou a ouvir uma sala no Clubhouse é mesmo essa referência que tenho.

A minha opinião sobre o Clubhouse

Comecemos pelos pontos positivos. Vejo muito potencial nesta rede social e gosto bastante de vários pontos:

  • Retira a pressão do vídeo, que acredito que é um bloqueio para muitas pessoas e, muitas vezes, é uma grande distração (não é por acaso o crescente interesse pelos podcasts);
  • De rápida utilização e com uma UX (experiência do utilizador) muito boa; entendemos em três segundos o que se passa e como utilizar;
  • Podemos ter a possibilidade de ouvir em tempo real pessoas incríveis e que admiramos.

Agora, os pontos negativos…

Parece ser impossível apagar a conta. Estou chateada e até “revoltada” comigo mesma por ter aceitado um convite e não ter lido as políticas de privacidade antes (lá está, eu própria, que sei a importância disto, erro muitas vezes).

Basicamente, é impossível (pelo menos por agora) apagarmos a conta por iniciativa própria. É preciso enviar um e-mail (já enviei há várias semanas) e há relatos no Reddit de pessoas que enviaram há meses e ainda têm a conta ativa. Ou seja, uma conta que está diretamente associada ao nosso número de telemóvel pessoal não pode ser apagada por iniciativa própria. Uma idiotice, uma grande lacuna de privacidade que retira independência e controlo por parte do utilizador sobre os seus próprios dados.

Outro aspeto é o armazenamento de números numa base de dados sobre as quais não se sabe nada. Para enviar convites é preciso partilhares toda a tua lista de contactos (não apenas o número que queres convidar) e não existe nenhuma informação factual nas políticas de privacidade sobre a proteção e utilização desses dados.

Eu não vou enviar convites porque não quero dar acesso à minha lista de contactos. Há relatos de que o Clubhouse está a utilizar contactos de pessoas que ainda não estão na aplicação para construir uma base de dados. Pelos vistos, quando se dá acesso aos contactos para enviar convites, o Clubhouse sabe quantas vezes um determinado número apareceu na lista de contactos dos membros que já estão ativos na rede social. Ou seja, mesmo que alguém não tenha interesse em juntar-se à rede social, apenas por fazer parte da tua lista de contactos, já está na base de dados da aplicação. E, sim, todas as redes sociais que têm acesso a contactos (Facebook, WhatsApp…) fazem o mesmo, daí precisares de pensar duas vezes antes de dar permissões ao que quer que seja.

Outro ponto negativo é o de não existir opção para não se ser encontrado pelo número de telemóvel (como, por exemplo, o Facebook tem para a questão do e-mail e do telemóvel).

Mais um? Vamos lá a outro aspeto negativo. A Agora, o sistema de áudio utilizado pelo Clubhouse, está envolvida em várias questões de privacidade e de gravação e utilização indevida dos áudios produzidos.12

Precisamente sobre a questão dos áudios, o Clubhouse diz na sua política de privacidade que poderá gravar as conversas para propósitos de investigação e segurança (ah, lá está: a tal questão de legitimidade, já abordada no meu artigo sobre o WhatsApp):

“Se um utilizador relatar uma violação de confiança e segurança enquanto a sala está ativa, iremos reter o áudio para fins de investigação do incidente e esse áudio eliminado quando a investigação for concluída. Se nenhum incidente for relatado em uma sala, a gravação de áudio temporária é eliminada quando a sala termina. ” (tradução do original publicado aqui)

A empresa acrescenta que “o áudio de utilizadores sem som e membros da audiência nunca é capturado e todas as gravações de áudio temporárias são encriptadas”.

Parece porreiro, certo? Vamos lá pensar melhor. É claro que o Clubhouse pode gravar o áudio de conversas apenas porque um utilizador clicou no botão “report”. Eu, enquanto participante, posso fazer isso em todas as conversas, se me apetecer. A conversa não acaba por eu fazer isso e os participantes não são notificados desse acontecimento. A conversa continua como se nada tivesse acontecido, sem estes terem conhecimento de que estão a ser gravados de forma permanente e não mais temporária.

A decisão de o áudio ser permanentemente eliminado ou não fica, assim, nas mãos do Clubhouse, mostrando, assim, que a empresa está a auto nomear-se como juiz e decisor do que é ou não abuso e apagando a evidência dessa denúncia por decisão própria.

Este aspeto da gravação é um grande problema, sobretudo na Europa, visto que, sob a diretiva ePrivacy 2002/58/EC, a confidencialidade das comunicações é obrigatória e a interseção das mesmas só é legal com o consentimento de todas as partes envolvidas.

Vale a pena ter um convite?

Se, no início, era mesmo muito, muito difícil ter um convite, hoje talvez não precises de procurar muito. Se queres muito ter um convite, pergunta nas tuas redes sociais se alguém tem um. Eu registei-me e recebi logo três convites e dois dias depois aumentaram para cinco.

O Clubhouse está, neste momento, a ser valorizado a olhos vistos. E apenas pelo seu número de utilizadores. Portanto, quanto mais utilizadores eles conseguirem, melhor.3

Se no início do Clubhouse a aplicação até poderia ser mesmo muito interessante, uma espécie de conferência de pessoas inspiradoras, hoje é um monte de ruído porque já “toda” a gente lá está.

Em conclusão: por aqui estou numa luta para apagar a minha conta e não vou mandar convites a ninguém porque não quero dar acesso à minha lista de contactos, uma vez que depois é quase impossível retirar essa permissão.

Se há algo que aprendi nos últimos meses é que é possível criar tecnologia ética e responsável. Tudo é uma questão de trade-offs (de cedência e trocas de alguma coisa). Percebo quem faça esse trade-off pelas massagens no ego que recebe no Clubhouse, mas neste momento não estou disponível para ceder a privacidade dos meus contactos que nem iPhone têm ou que nem querem saber do Clubhouse para ter mais seguidores e fazer uma pessoa feliz.

Mais uma vez, adoro o conceito da rede social: acho que é o momento ideal para ter uma rede social assim. Se vai distrair alguns, é capaz. Mas se essas pessoas são distraídas pelo Clubhouse, é porque já o estavam a ser por outra rede social qualquer.


  1. Clubhouse in China: Is the data safe? – Stanford – Internet Observatory (link)
  2. Amendment No.2 To Form F-1 Registration Statement Agora, INC. – United States Securities and Exchange Commission (link)
  3. À data que escrevo este artigo, o Clubhouse tem uma avaliação de mil milhões de dólares. Latest Silicon Valley Unicorn, Clubhouse, Raises $100 Million; Accelerates Rise Of Audio-Based Social Networking – Forbes (link)
Krystel Leal
Krystel Leal
Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde estuda Futures Thinking e reflete, demasiado, sobre o futuro.

Entra na Comunidade Digital

Partilha as tuas dúvidas, questões e reflexões no fórum privado do Nomadismo

Deixa um comentário

O teu endereço de email não será publicado. Os campos marcados com * são de preenchimento obrigatório.

Subscreve a newsletter e recebe conteúdos exclusivos

A newsletter do Nomadismo não é apenas uma notificação de novos conteúdos. Na newsletter tens acesso a partilhas sobre trabalho remoto por conta própria que não faço faço em mais nenhum outro lugar.

O teu email está seguro e não será vendido ou passado a terceiros. Lê mais sobre na política de privacidade simples de entender do Nomadismo. A qualquer momento podes desinscrever-te da newsletter.