Vou deixar o WhatsApp – fica a saber o que está acontecer

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WhatsApp - Aplicação do Facebook no Telemóvel

Índice

Em junho de 2020 decidi eliminar completamente as minhas contas de Facebook e Instagram. A decisão esteve relacionada sobretudo com dois aspetos.

Primeiro, por uma questão de sanidade mental, uma vez que estava a receber estímulos, informações e conteúdos que nada agregavam ao meu dia a dia.

Segundo, por motivos de privacidade e devido ao aumento da utilização e exploração dos meus dados e comportamentos pessoais e, por consequência, dos dados dos meus contactos.

Em janeiro de 2021 o WhatsApp (que pertence ao Facebook) anunciou que vai colocar em vigor algo que já estava nos seus termos e condições desde 2018, mas que, até então, o utilizador podia escolher aceitar ou não.

Inicialmente, o WhatsApp exigia a aceitação dos novos termos até dia 8 de fevereiro. Essa decisão, muito devido à controvérsia e manifestação de vários utilizadores, foi revista e prolongada até dia 15 de maio. De qualquer forma, vai mesmo acontecer. É só mais uns meses para, quem quiser, se ajustar.

Assim, quem aceitar estes novos termos vai partilhar com o Facebook (e todas as empresas do grupo, como o Instagram) os metadados das suas mensagens e ações dentro do WhatsApp.

A questão que, aos meus olhos, me levanta mais problemas é o facto de eu não poder recusar estes termos, como te explico abaixo.

Esta questão (de não poder opor à utilização dos metadados do WhatsApp pelo Facebook) só se aplica a pessoas fora da União Europeia (o meu caso). Na União Europeia, com as políticas do Regulamento Geral de Proteção de Dados, uma aplicação está proibida de passar dados pessoais a outra sem a aprovação expressa do detentor dos dados pessoais, ou seja, tu. Isto significa que tudo o que te explico neste artigo também se aplica a ti: a única diferença é que eu não posso, enquanto residente americana, recusar estes termos.

A parte da transmissão de dados entre o WhatsApp e o Facebook não está literalmente descrita na política de privacidade aplicada à União Europeia (contrariamente ao que acontece com os Estados Unidos, por exemplo). No entanto, isso não significa que o WhatsApp não esteja a captar os teus dados e informações. 

O Regulamento Geral de Proteção de Dados Europeu (RGPD) não impede o Facebook de ter acesso à tua informação. Um aspeto claro do RGPD é que diz que a empresa deve ter uma base legal e interesse legítimo para usar os teus dados. 

E é precisamente esse tipo de termos que o Facebook usa na sua política de privacidade europeia (atualizada bem recentemente e muito interessante de ser lida: está em português de Portugal).

O que vai ser partilhado pelo WhatsApp com o Facebook?

Vamos por partes: o que são os dados e o que são os metadados?

Os dados, no caso do WhatsApp, são as mensagens propriamente ditas (o conteúdo, o texto, o que partilhamos com outras pessoas). Esses dados não vão ser partilhados com ninguém.

No WhatsApp (segundo a empresa), as mensagens são totalmente encriptadas de ponta a ponta, ou seja, apenas os intervenientes na mensagem é que a conseguem ver. Com efeito, se estás a falar com alguém no WhatsApp sobre computadores, esse conteúdo não deverá servir para alimentar publicidades sobre computadores que podes vir a ver no Facebook ou no Instagram (se isso acontecer, é uma bruta coincidência).

Além dos dados (ou seja, das mensagens), existem os metadados. Os metadados contextualizam os dados que transmitimos online. Os metadados existem, por exemplo, nas fotografias que tiramos com o telemóvel ou com a câmara digital (cada fotografia pode ter metadados como a localização, a data e a hora em que foi tirada, o modelo da câmara utilizada, os filtros utilizados, etc.).

No caso do WhatsApp, os metadados das mensagens são, por exemplo, (retirado dos próprios termos de serviço do WhatsApp):

  • o teu número de telemóvel;
  • o registo de quantas vezes e durante quanto tempo utilizas o WhatsApp;
  • a informação das pessoas com quem interages;
  • a identificação do teu dispositivo;
  • o teu IP;
  • o estado da bateria do teu dispositivo;
  • o idioma que utilizas no dispositivo; ou ainda
  • o fuso horário.

Sejamos sinceros: não é raro haver captação deste tipo de dados na internet. Mesmo num website normal é possível captar-se este tipo de informação (que é muito útil para marketers como eu).

No entanto, algo que é possível na generalidade dos websites (sobretudo em conformidade com o RGPD Europeu) é dizermos que não queremos partilhar esse tipo de informação; ou, pelo menos, podermos exigir a sua eliminação e/ou sabermos exatamente como é utilizada essa informação pela empresa em questão.

Isto pode ser feito desativando os cookies, não aceitando a política de cookies do website em questão, usando uma VPN, recorrendo a um pedido oficial, entre outras formas.

Com o WhatsApp tal não é possível. És obrigado a aceitar a política de partilha destes metadados para continuar a utilizar a ferramenta. Na verdade, até podes recusar, mas isso é sinónimo obrigatório de não poderes usar a aplicação.

O RGPD diz que temos o direito de nos objetar ao processamento dos nossos dados relativamente a processamentos não legítimos, estando esses processamentos, por norma, relacionados com campanhas de marketing ou armazenamento de dados que não ajudam nem agregam nenhum valor. O Facebook capta os teus dados sob a proteção da legitimidade de interesses e utilidade dos mesmos, pelo que a recusa desse mesmo processamento se torna difícil por parte do utilizador.

Algo sobre o qual podes ter controlo é a redução do intrometimento do WhatsApp. Para isso, a melhor dica que te posso dar (para além de aconselhar que penses de forma crítica sobre o uso da aplicação) é não aceitares a partilha dos teus contactos. Ao aceitares que o WhatsApp aceda à tua lista de contactos do telemóvel, estás a permitir à empresa aceder a todos os teus contactos (estejam eles no WhatsApp ou não, estejas tu a ter conversas com eles ou não).

Outro aspeto relevante nestes novos termos é a possível integração do WhatsApp nas lojas de Facebook. Com a partilha de dados entre as duas aplicações, os metadados do teu WhatsApp poderão ser utilizados para otimizar experiências comerciais dentro do Facebook e do Instagram.

A grande mudança relativamente ao que está a acontecer agora e ao que acontecia com os termos e condições anteriores (publicados em 2016) não são os dados que o WhatsApp tem e partilha com o Facebook, pois isso não mudou; o que muda agora é o facto de o utilizador não poder dizer que não quer.

Deixar ou não deixar – o digital permite-te fazer o que quiseres

Vou deixar algo bem claro: do ponto de vista profissional, não vejo nada de errado nisso. O WhatsApp é um produto, o Facebook é uma empresa privada e o seu objetivo é ganhar dinheiro (e atualmente não há nada mais valioso do que os dados, que já valem mais do que o petróleo1.

Sei bem como o Facebook ganha dinheiro. Para entenderes melhor o negócio das redes sociais, recomendo-te que leias o meu eBook Redes Sociais vs Blogs: quem ganha esta batalha? ou que assistas ao documentário O Dilema Social das Redes Sociais, na Netflix.

Acredito veementemente na responsabilização individual: cabe-nos a nós, individualmente, sabermos o que estamos a usar e escolhermos as melhores alternativas para o que pretendemos fazer e alcançar.

Esta noção de responsabilização individual é perfeitamente compatível com a responsabilidade que podemos exigir a grandes nomes tecnológicos em questões éticas e sociais. No entanto, no fim de contas, a decisão de as usarmos ou não cabe-nos a nós. E só quero e procuro que essa seja uma decisão mais informada e consciente.

O digital permite-nos encontrar alternativas mais alinhadas com aquilo que acreditamos ser o melhor para nós. O digital permite que qualquer pessoa encontre o seu lugar, a sua forma de se expressar e de se posicionar.

Recuso totalmente a ideia de que para se ter sucesso, de que para se conseguir alguma coisa, de que para se conseguir continuar a ter contacto com alguém online tenhas de estar num determinado sítio. Isso é ridículo, as coisas e as pessoas que realmente importam e agregam valor à tua vida são adaptáveis e não são dependentes de canais de comunicação; são apenas dependentes de ti.

Ninguém está numa rede social apenas, ninguém usa apenas uma aplicação ou ferramenta; e, de qualquer forma, existem ações diretas, como chamadas ou mensagens de texto. Afinal, cada um de nós é construído por diversas camadas e motivado por diferentes interesses e isso deveria fazer com que nos movimentássemos em diferentes plataformas, em diferentes grupos, em diferentes websites. Só com a exploração de todas as nossas diferenças é que podemos chegar a um consenso na nossa igualdade. A exploração dos aspetos em que somos iguais é o que cria a polarização. Mas isso é outra questão mais profunda relativamente à presença digital!

Não quero dizer que as pessoas tenham de se adaptar a mim porque decidi ir contra a corrente onde está toda a gente, nada disso. E também não significa que sou melhor que elas, nunca isso! Só significa que tenho clareza naquilo que procuro para a minha presença digital pessoal. Também acredito que é normal na vida a tua rede de contactos próxima se ir afunilando e ficar mais adaptada à pessoa em que te vais tornando. É a seleção natural da vida e do crescimento. Nesse sentido, sei que não preciso de ferramentas específicas para continuar em contacto próximo com as pessoas que realmente interessam na minha vida. Quando interessam, e quando agregam valor direto às nossas vidas, as pessoas continuam presentes e arranjam-se formas de continuar em contacto com elas.

Signal e WhatsApp

Vou tentar levar algumas dessas minhas pessoas para o Signal2. Se essas pessoas não se alinharem com a minha posição de migrar totalmente para o Signal ou se não quiserem instalar mais uma aplicação para falar comigo, percebo totalmente. E é para isso que existem os e-mails, as mensagens e as chamadas (sobretudo se tiverem iPhone, existe sempre o iMessage e o FaceTime).

O Signal é uma aplicação de mensagens similar ao WhatsApp, no entanto, com vários pontos interessantes:

  • É open-source, ou seja, tem o seu código aberto;
  • Tem encriptação de ponta a ponta (a mesma que o WhatsApp, mas nesta última não é possível verificar o que a aplicação faz realmente).

O Signal tem fãs e utilizadores como o Elon Musk3 ou o Edward Snowden. O Edward Snowden fez até o comentário que, na minha opinião, é o mais interessante sobre a aplicação. Quando questionado sobre se acredita mesmo na segurança do Signal, o Snowden respondeu apenas: aqui está a razão (pela qual acredito): uso-a todos os dias e ainda não estou morto.4

E porque não o Telegram?

Vejo muitas pessoas a usar o Telegram. Já testei a aplicação. Por exemplo, para criação de listas de difusão (broadcasts) é bem interessante. No entanto, a meu ver, peca por uma questão: por definição, as comunicações não são encriptadas. Para teres conversas totalmente encriptadas precisas de usar a funcionalidade de chats secretos. Ou seja, a funcionalidade de encriptação das mensagens (de ser teoricamente impossível ler o conteúdo do que envias e trocas), que o WhatsApp e o Signal têm, não existe, por defeito, no Telegram.

Conclusão

O importante é estarmos conscientes, numa perspetiva individual, do que estamos a fazer no digital. Ter literacia digital não é apenas saber mexer em ferramentas. Não é apenas saber como elas funcionam. É entender de que forma podem afetar a nossa vida pessoal e, com isso, colocarmos tudo em cima de uma balança e vermos para que lado pende mais.

Pessoalmente, neste momento não confio no Facebook e na forma como estão a espremer os dados das pessoas, os seus comportamentos e a utilizar isso para passar e controlar narrativas sociais. Numa perspetiva individual, escolho minimizar o máximo que conseguir a minha interação com essa empresa.

No entanto, não quero com isto dizer que toda a gente deva ter este mesmo comportamento e ação. Devemos, sim, saber e ter cada vez mais consciência das consequências que as nossas ações podem ter na internet.


  1. “The world’s most valuable resource is no longer oil, but data” – The Economist (link)
  2. “Qual a app de mensagens mais segura? Comissão Europeia escolhe o Signal para uso interno” – Shifter (link)
  3. Recentemente, o Elon Musk fez um tweet que dizia apenas: Usa o Signal. Este simples tweet fez disparar o valor de ações de uma empresa chamada Signal Technologies… em nada relacionada com a aplicação Signal. (link)
  4. @Snowden: Here’s a reason: I use it every day and I’m not dead yet. (link)
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Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde estuda Futures Thinking e reflete, demasiado, sobre o futuro.