Ansiedade à frente do computador com tanto conteúdo disponível - Como lidar com o desejo de produzir mais conteúdo no digital? - Nomadismo Digital Portugal

Como lidar com o desejo de produzir mais conteúdo no digital?

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Numa altura onde a comunicação digital está mais acessível que nunca, não é de estranhar que o desejo de passar conhecimento seja, também ele, mais desejado que nunca. Neste artigo partilho contigo algumas das técnicas que eu utilizo para produzir conteúdo no digital de uma forma que não me atropele, nem prejudique a minha audiência.

Numa fase onde nos vemos confinados às nossas quatro paredes, é normal que queiramos encontrar formas de alimentar o nosso ego.

Não te sintas mal! É normal, é humano. Precisamos de atenção, de um olhar de outras pessoas, de interações sociais. Está tudo certo. Eu também sinto isso e não há problemas em admitir, como vais ler abaixo.

Mas como a Sofia de Assunção diz, “o Ego é a imagem que eu crio de mim a partir do que eu acho que os outros acham que eu devo ser”. Numa fase como esta, em que o momento é de confusão mas de clareza, de pausa mas de rapidez, é essencial, mais do que nunca, sabermos quem realmente somos e diferenciar isso do que achamos que temos que ser.

O que me ia fazer entrar num oceano de conteúdo no digital no qual eu não quero nadar

No início da pandemia, na altura em que as coisas começaram a fechar e o trabalho remoto começou a emergir como a solução para manter alguns negócios e atividades a funcionar, o meu email e a minha caixa de mensagens nas várias redes sociais começaram a encher-se, mais do que o normal.

Não me interpretes mal: gosto de atenção, de ver o meu trabalho elogiado e que olhem para mim como alguém relevante para a temática do trabalho remoto em Portugal. Seria hipócrita da minha parte dizer o contrário.

Afinal, este post é também uma demonstração desse desejo, do Ego que falava acima, de querer ser vista, de ser ouvida. Mas é preciso separar o dizer tudo o que acho, e dizer apenas o que preciso para chegar mais longe nos meus projetos e realmente ajudar-te. Já te explico a diferença entre cada uma destas caraterísticas.

Estive a dar quase o passo para aceitar tudo o que recebia. Mas felizmente, apesar de ser uma pessoa pouco dada a energias e “sextos sentidos”, rapidamente percebi que não estava muito à vontade com isso.

Nestes mais de quatro anos que tenho o Nomadismo Digital Portugal nunca me expus muito, não porque não tenho coisas para dizer ou para passar, mas porque quando o faço, tem que ser com preparação, com um propósito e com um objetivo bem concreto.

Seria impossível participar em todos os diretos que me convidavam, e que agora acontecem dia sim, dia sim. E isso porque:

  1. não teria tempo para preparar um direto por dia, e
  2. não queria que tu, a pessoa que eu quero ajudar a agir, perdesses uma hora todos os dias a ver diretos meus.

Um direto é um conteúdo no digital que precisa de preparação

Nunca me fez sentido ir para um direto sem o preparar. Algo que tento sempre fazer é falar com quem me convidou para definir um pouco os temas a conversar. Assim tenho não só tempo de pensar em exemplos e dados para partilhar, como preparo também o meu discurso para que seja direcionado para a ação de quem me for ouvir.

E aqui entramos na primeira parte do que queria partilhar contigo. É importante que, na minha opinião, quando fazes um direto, a tua ambição principal seja partilhar ação.

Como um bom conteúdo no digital, que pede uma chamada para ação (os chamados call to action), tens que ver os diretos também como um conteúdo. Dás valor, dás conteúdo, mas adicionas dicas práticas que permitam à pessoa saber o que pode fazer com o que acabaste de partilhar.

Um exemplo disso, foi o que tentei fazer no direto que fiz com a Ivone Cruz do Link Cowork & Business. Se ouvires o direto todo, vais ficar a saber não apenas a minha história e percurso, como também:

  • vais ter dicas práticas de como podes sair da caixa para encontrares o que podes fazer profissionalmente no digital. Spoiler alert: explico de que forma podes analisar as tuas competências, tanto as que estão fora ou dentro do teu CV,
  • dou vários exemplos do que podem ser essas competências que nos passam tantas vezes ao lado e,
  • ainda dou exemplos de atividades que podem ser feitas no digital por pessoas com backgrounds profissionais tão improváveis como um bombeiro!

A preparação de um direto permite lidar melhor com um erro que pode acontecer muito facilmente: a confusão entre factos e opiniões. Mesmo com preparação, podemos cometer esse erro, mas uma preparação permite minimizar esse risco.

A importância dos factos numa era apocalíptica

Hoje, mais do que nunca, com tanta informação, é essencial que partilhes factos. E isto não é apenas uma opinião; é um facto (vês o que fiz aqui?). Vivemos uma fase de apocalipse informativa. Vi este termo em inglês Info-Apocalypse neste artigo do BuzzFeed News e fiquei presa ao conceito. Numa altura onde é produzida uma quantidade astronómica de dados e informação digital1, precisamos, mais do que nunca, de dados concretos que nos ajudem a dar sentido a tudo o que lemos.

Esse termo levou-me a encontrar o termo de Content Shock, e acabei por devorar os conteúdos escritos pelo Mark Schaefer, que associam esse conceito à minha área profissional, o Marketing de Conteúdo.

Content Shock - Nomadismo Digital Portugal

Mas o que é que isto tudo tem a ver com a questão dos factos e das opiniões?

Com a facilidade de partilha e com a quantidade gerada de data, toda a gente tem o poder de partilhar a sua opinião. E por mais porreiro que isso é (o direito à opinião e a liberdade de expressão são das coisas mais valiosas que temos), a verdade é que quando damos por nós, estamos a consumir opiniões de outras pessoas, a deixar que as nossas próprias opiniões sejam influenciadas por essas opiniões, e ficamos no meio de um oceano de opiniões, longe da costa dos factos.

As opiniões são apenas isso: opiniões. É alarmante que os telejornais hoje tenham mais de metade do seu tempo de antena com comentadores. Os jornais hoje estão atolados de crónicas. As opiniões podem ajudar a dar sentido aos factos, mas é perigoso quando o consumo de opiniões se sobrepõe ao consumo de informação.

É possível mudar realidades e acontecimentos com opiniões fortes, mas não devemos deixar que opiniões fortes se sobreponham a acontecimentos. Afinal, isso é o que pode levar rapidamente a situações sociais complicadas de lidar.

A questão do Content Shock muito falada pelo Mark Schaefer tem muito a ver com isso. Quanto maior é o número de conteúdo no digital ao qual temos acesso, menor é o nosso rácio de atenção e de reflexão ativa. Ou seja, quanto mais lês, consomes e vês, menos reténs e menos informação tens para refletir e na qual basear a tua própria visão.

Isto leva à questão da importância do foco e da segmentação do que consomes. Escolhe com consciência o que queres realmente consumir. Tens que ter mesmo a certeza de quem tu és, do que queres fazer com a tua vida e o que queres alcançar.

Se procuras apenas relaxar depois de um dia de trabalho, ótimo. Vê um, dois, dez diretos ou conteúdos aleatórios. Mas se tens objetivos concretos que queres alcançar, pensa e reflete bem no que abres, no que lês, no que vês, no que compras e no que subscreves.

Mas e se perder algo interessante?

Por mais que eu saiba e diga tudo isto, a verdade é que o funcionamento das redes sociais e das aplicações que usamos torna esta ação muito difícil de concretizar.

As redes sociais são feitas para viciar, e não são só rápidas, fáceis e intuitivas de utilizar. Os algoritmos estão cada vez mais potentes e só nos apresentam conteúdos que são compatíveis com os nossos interesses. Como resistir?

Todo o conteúdo nas redes sociais está programado para que seja realmente apelativo e difícil de escapar.

Quanto mais tempo passares a ler conteúdo numa rede social, mais isso diz sobre ti, mais caraterísticas são adicionadas ou melhoradas no teu “perfil digital”, mais anúncios podem as redes sociais vender sobre ti. Conhecem-te cada vez melhor, logo conseguem cobrar bem por esse saber; é um deal aparentemente win-win: tu tens conteúdo que te interessa, a marca sabe que está à frente de alguém que tem um interesse pelo produto dela, e a rede social mantém-te ainda mais viciado nela.

O FOMO (acrónimo para Fear of Missing Out, em português “Medo de Perder Algo”) é algo real. Não há como fugir. Mesmo eu que, desde dezembro, desinstalei tudo o que são redes sociais do telemóvel, sinto isso.

Tive uma fase em que estava a ser exposta a muito “conteúdo lixo”, porque era isso que acabava por abrir, nem que fosse por curiosidade mórbida. Mas ao abrir, estava a dizer ao algoritmo que isso podia ser interessante para mim, e pronto.

Hoje como faço um esforço brutal por apenas ler, ver, abrir e subscrever o que realmente me interessa, sinto o FOMO de outra forma: é incrível a quantidade que existe de bom conteúdo no digital. Este é um grande problema; há muitos bons diretos, muitos bons conteúdos, muitos bons eventos a acontecer.

Mas há tanto conteúdo no digital de qualidade que quero consumir e produzir!

A forma que eu usei para lidar melhor com isto, sobretudo nos últimos meses, foi de saber exatamente o que quero fazer com o meu trabalho e com a minha vida pessoal.

Depois de ler o The Paradox of Choice: Why More Is Less e de pensar em silêncio, apenas comigo, percebi que saber exatamente o que quero é uma chave poderosa para saber o que preciso mesmo de consumir, e sobretudo que diretos e parcerias devo aceitar e as que devo recusar.

  1. Precisei de tomar controlo, de uma vez por todas, sobre o que me chega de informação diariamente. Não podemos esperar e contar com a ajuda das aplicações para nos dizerem o que devemos consumir. Assim sendo, desinstalei as redes sociais do telemóvel, fiz uma limpeza agressiva no meu Feedly (passei de 220 sites adicionados para 20) e fiz uma limpeza agressiva nas newsletters que subscrevo (e esta continua a acontecer diariamente);
  2. Escrevi (literalmente) os meus objetivos (tanto pessoais, como profissionais) e pensei em ações que posso tomar a curto prazo (6 meses) que me permitam dar um passo concreto para estar mais perto de os alcançar;
  3. Olhei para esses passos e tentei entender que conteúdos preciso de ler, de consumir e de produzir para lá chegar.

Neste passo 3 fiz uma lista de temáticas, não propriamente de fontes de conteúdo. Pensar em temáticas ou em competências que precisas de desenvolver, facilita a que sempre que te aparece um conteúdo à frente, consigas rapidamente avaliar se isso te vai ser útil ou não.

Também defini que tipo de conteúdos preciso de criar e dinamizar para fazer com que o meu público alvo esteja envolvido nesta minha trajetória. E foi aí que percebi: dificilmente se dá diretos diariamente e se tem tempo para criar ação (só fica com histórias, não com experiências e ações para partilhar). Consequentemente, é pouco provável que alguém que esteja diariamente preso ao ecrã a ver conteúdos de outras pessoas, tenha tempo e sobretudo disposição mental, para agir e aplicar o que até pode estar a aprender. Afinal, como digo tantas vezes, saber sem fazer, não é saber.

A reflexão que quero também deixar aos meus colegas produtores de conteúdos é: eu percebo que queiram “aproveitar a onda”. Que não querem perder o momento.

Mas querem ser grandes hoje e estar em todas e amanhã já não terem nada para partilhar de relevante, ou querem caminhar com calma e consciência e irem construindo algo duradouro no tempo? E isto não só por vocês, pelo vosso mental, mas pensem também na vossa audiência e no vosso impacto do vosso trabalho.

Se querem vender apenas opiniões, inspirações e experiências, go for it. Mas se querem alimentar ação, reflexão e mudanças com os vossos conteúdos, experimentem parar um pouco.

Parem para aprender, para evoluir, para ouvir o que é preciso para criar um caminho sustentável para chegarem onde querem chegar. Fazer muito pode efetivamente colocar-vos na berra, no topo da onda, na boca de toda da gente, na referência de hoje: mas, pessoalmente, não conheço muitos exemplos de pessoas que mudaram o mundo apenas a falar; as que mudam realmente o mundo, fazem.

A ti de decidir, se queres falar e ouvir ou, efetivamente, mudar e fazer.


  1. Segundo o World Economic Forum, estima-se que até 2025 sejam produzidos, diariamente, 463 exabytes de dados/data.
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