Os mitos sobre o trabalho remoto por conta própria

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Muitas são as pessoas que querem descobrir um trabalho remoto por conta própria. Apesar de eu ter um curso intitulado precisamente “Descobre a tua Área Profissional no Digital”, a verdade é que este processo tem muito mais de criação do que propriamente de descoberta.

Isto porque o teu futuro trabalho remoto por conta própria, se o queres sustentável, não está, milagrosamente pronto em algum lado, à tua espera, à espera que o descubras e que trabalhes nele.

Um trabalho remoto por conta própria exige muito esforço, muita reflexão, muita tentativa e muito erro também. O objetivo do curso é provocar ação da tua parte. É fazer com que cries, trabalhes, estudes, reflitas, apliques para conseguires chegar ao momento em que queres realmente ter a tua área profissional a funcionar e dizeres, com total confiança que “ok, ela é sustentável, ela preenche os meus objetivos pessoais, preenche os meus objetivos profissionais e preenche também os meus objetivos financeiros”.

Mas antes de falar de realmente trabalho remoto por conta própria, de criação, de tentativa ou de teste, acho sempre interessante começarmos por falar de mitos.

Os mitos do trabalho remoto por conta própria

Faz o que gostas e não tens que trabalhar para o resto da tua vida

Um grande mito associado ao trabalho remoto por conta própria é a questão do trabalho de sonho. O trabalho remoto é muitas vezes pintado como um trabalho perfeito, onde nós, os trabalhadores remotos, por fazermos aquilo que gostamos, não precisamos de “trabalhar para o resto da nossa vida”. Aqui aplica-se a frase cliché “faz o que gostas e não tens que trabalhar para o resto da tua vida”.

Vou-te ser sincera: esta frase enerva-me. Eu acredito que o fundamento desta frase até está certo, mas o que acaba por acontecer é olharmos para isto como se o trabalho que nos deixa felizes é suficiente. Que gostar do que fazemos é suficiente porque vamos ser felizes. Para mim, apenas gostar do que fazemos não é suficiente.

Não acho que por gostarmos do que fazemos isso signifique obrigatoriamente que não sentimos que é trabalho. Eu acredito que esta frase está muito associada à questão do trabalho ser socialmente associado a uma coisa negativa. Trabalhar é visto por muitos como um sacrifício e como uma coisa chata. Afinal, é muitas vezes aquela coisa sobre a qual nos estamos sempre a queixar.

O trabalho pode ser bom e pode deixar-te feliz… se fizeres aquilo que gostas e se for construído com as bases certas e a motivação certa. Trabalhar é bom e trabalhar é uma coisa boa. Mas o facto de o trabalho ser bom não está apenas associado ao facto de gostarmos de o fazer. Está também associado ao facto de isso nos proporcionar conforto e estabilidade financeira, nos trazer segurança e reforçar sentimentos positivos na nossa vida. Continua a ler para entenderes melhor o que quero dizer com isto.

Gostar do que se faz é o mais importante

Outro dos mitos que também se ouve muito é: “gostar do que se faz é o mais importante”. E a verdade é que se, sim, gostar do que fazemos é importante (aliás, é o que eu considero a base da pirâmide de área sustentável), mas gostar do que se faz é apenas uma peça do puzzle.

Gostar do que fazemos não é mais importante do que o dinheiro que o trabalho nos traz e não é mais importante do que a aplicação de determinadas competências que temos. Ou seja, a parte do gostar é apenas uma peça do puzzle.

Se fosse o mais importante, muita gente estaria a trabalhar nas suas paixões. Muita gente não o faz, se calhar, porque não sabe como fazê-lo, mas muitas vezes é porque nem tudo aquilo que gostamos dá dinheiro.

Como eu digo muitas vezes, a paixão sozinha não paga contas. Não é por gostarmos de fazer muito uma coisa que essa coisa tem ou vai obrigatoriamente dar dinheiro. Se não houver procura do mercado, se essa paixão e esse interesse não resolverem um problema e se não formos bons a fazer essa determinada coisa, ninguém nos vai pagar por isso. Até podemos estar ter o melhor trabalho remoto por conta própria e a trabalhar na nossa paixão, mas se isso não nos pagar as contas no final do mês, certamente não vamos ser felizes.

O trabalho serve apenas para pagar contas

Muitos de nós cresceu a ouvir coisas como: “tens que ter um bom trabalho“, tens que “segurar” o trabalho ou o “tens trabalho, porque é que te estás a queixar quando há tanta gente sem trabalho?.

Esta associação direta do trabalho ao rendimento leva-me a dizer, mais uma vez, que o dinheiro é uma peça importante do puzzle, mas é uma peça, não é a coisa mais importante.

Eu acredito que temos que procurar ter um trabalho que se adapte à nossa vida e não ao contrário. E atenção: há pessoas extremamente ambiciosas e que através da progressão de carreira tradicional têm preenchidas as suas ambições pessoais. Não quero insinuar, através dos meus conteúdos ou partilhas, que trabalhar remotamente ou trabalhar por conta própria é melhor. Porque não é. Se a pessoa tiver ambições pessoais compatíveis com um trabalho corporativo de 80 horas semanais e procura ter os lucros provenientes desse mesmo trabalho, pode e deve procurar trabalhos que a faça feliz. Se a pessoa precisar de contacto humano profissional diário, será extremamente infeliz a trabalhar remotamente sete dias por semana.

O que deveríamos procurar, lutar e tentar motivar na sociedade é o abraçar de empresas, oportunidades e áreas profissionais que permitem uma total adaptabilidade a nós, enquanto pessoas. Quer essas pessoas procurem oportunidades remotas, não remotas, por conta de outrem ou independentes. Vivemos na melhor era económica, tecnológica e laboral da história moderna. Temos, consequentemente, a possibilidade, a nível individual, de poder encontrar e criar alternativas para tudo o que queremos.

Se passamos mais de metade da nossa vida a trabalhar, é bom que seja em algo que gostemos. Portanto, o trabalho não serve apenas para pagar contas. Também deveria deixar-nos satisfeitos, e deveria preencher-nos pessoalmente e profissionalmente.

Dito isto, na minha opinião, o trabalho ideal é o cruzamento destas três coisas:

  1. do que tu gostas de fazer, daquilo que te motiva e daquilo que te faz saltar da cama todas as manhãs;
  2. das tuas competências, dos teus conhecimentos e daquilo que tu sabes fazer;
  3. e das necessidades e resposta a problemas específicos que as pessoas têm.

Por ser um o cruzamento destas três coisas, se trabalhares em algo que dá dinheiro, mas do qual tu não gostas ou não sintas que vais retirar daí os resultados que procuras, vai-te faltar uma componente importante e não vais estar motivado – por mais dinheiro que tu ganhes com essa coisa. Também podes trabalhar numa coisa que te apaixone muito, mas se isso não te trouxer um rendimento mensal e constante para te permitir ter sustentabilidade e equilíbrio financeiro, tu também não vais ser feliz.

Uma última nota muito importante: mesmo este tipo de trabalho, que cruza aquilo que tu gostas de fazer, aquilo que tu sabes fazer e aquilo que dá dinheiro e que as pessoas pagam para ter, não é sinónimo de não ter que trabalhar ou sinónimo de fazer apenas aquilo que tu gostas.

Eu trabalho remotamente por conta própria desde 2015. Eu criei a minha própria atividade, eu faço aquilo que realmente quero, todo o tipo de serviços que eu vendo e que presto são serviços pensados por mim, estipulados por mim e definidos por mim. No entanto há sempre algumas coisas no meu trabalho que não gosto propriamente de fazer e que tenho plena consciência disso.

Contudo, quando eu olho para a minha balança profissional, sei que realmente está muito mais positiva do que negativa. Apesar de ter ali alguns elementos negativos eles não são pesados o suficiente ou relevantes o suficiente para fazer com que a balança esteja assim tão desequilibrada.

É importante teres esta noção de que mesmo o trabalho mais perfeito, mesmo ao criares o teu trabalho, vais ter sempre ali elementos que não te vão deixar 100% satisfeito. Mas no final, o ponto essencial é fazeres com que a balança esteja sempre positiva.

Esta é a primeira aula do curso online “Descobre a tua Área Profissional no Digital”.

Krystel Leal
Krystel Leal
Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde vê os seus questionamentos a materializarem-se bem mais rápido do que alguma vez imaginara.
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