O fim do Nomadismo Digital Portugal

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Pensei muito antes de tomar esta decisão. Comecei a escrever este texto várias vezes mas nunca perdi a vontade de o acabar – afinal, estou ansiosa para que o futuro me reserva.

O Nomadismo Digital Portugal vai “acabar”.

Criei o Nomadismo Digital Portugal em fevereiro de 2016. Partilhava há uns dias com uma amiga que tenho pena de não ter mantido diários dessa altura. Adorava ter algo que documentasse a energia que eu senti nessa altura, altura que marcou o meu início de trabalho enquanto freelancer remota.

Fevereiro de 2016 foi o mês em que decidi que ia trabalhar por conta própria. Depois de mais de um ano a estruturar a minha atividade, a errar mais vezes do que acertei, a fechar contratos fixos, sabia que estava pronta. Sabia que o sonho de trabalhar remotamente, a partir de qualquer lugar do mundo, já não era um sonho, mas sim uma realidade. Uma realidade que era difícil de partilhar com amigos – não conhecia ninguém que o fizesse, pelo menos no mercado português. Decidi aí que queria mostrar que era possível alguém trabalhar remotamente, no digital e em português de Portugal.

Nesse início de 2016 tive mesmo energia para tudo. Tive energia para sair de Paris, cidade que tinha escolhido, em 2010, como a minha casa; energia para viajar pela Europa; energia para criar uma atividade profissional do zero que não trazia manual de instruções; e energia para criar um projeto que nunca imaginei que se fosse tornar no que é hoje o Nomadismo Digital Portugal.

Bastaram poucos meses a escrever sobre freelancing e sobre a minha experiência enquanto nómada digital para ser convidada para entrevistas, reportagens e conversas sobre trabalho remoto e nomadismo digital.

Hoje, em 2021, e depois de uma pandemia que levou milhões de pessoas a trabalhar a partir de casa, parece uma piada falar-te da importância desse período. Mas considero que foi mesmo uma altura importante, e tenho muito orgulho do trabalho e influência que o meu trabalho teve nesse momento.

Sempre tive um enorme orgulho em poder trabalhar remotamente – tanto que, mais de seis anos depois de ter começado, ainda o faço. Mas a verdade é que de nómada sempre tive muito pouco.

Em 2016 viajei por várias cidades enquanto trabalhava remotamente, sem nunca ter uma morada fixa. No entanto, em 2017 mudei-me para a Califórnia e, apesar de defender que um trabalhador remoto pode ser nómada digital se assim o quiser, a verdade é que nunca me identifiquei totalmente com o termo. Mesmo em 2016, quando viajava de cidade em cidade, sempre o fiz de uma forma tão, mas tão lenta, sempre a pensar onde é que gostaria de fixar raízes. Adoro viajar, continuo a fazê-lo com muita regularidade, mas adoro ter um lugar para o qual posso voltar.

O Nomadismo Digital Portugal foi evoluindo comigo. Se em 2016 refletia as experiências e pensamentos de quem trabalhava remotamente enquanto viajava, em 2017 trouxe as experiências de quem continuava a trabalhar remotamente por conta própria a partir de um lugar fixo. Comecei a trazer conteúdos sobre coworks, networking e home office.

Os anos foram passando, e os temas nos quais me fui interessado foram mudando. Depois de ter fracassado na adoção de muitas “fórmulas mágicas”, fui percebendo que não há mesmo fórmulas que servem para toda a gente nisto do trabalho remoto ou da criação de conteúdos no digital. Percebi que o sucesso mede-se pelo nível de adaptabilidade de quem somos com aquilo que sabemos e fazemos.

Fui-me interessando pelo tema da literacia digital e de futures studies. Comecei a estudar futurismo, a perceber que quero ter um papel ativo no meu futuro e que o primeiro passo seria afastar-me do consumo passivo de (dis)informação e saí das redes sociais.

Comecei a explorar temas que me permitissem conectar as várias coisas que sei, penso e aprendo. Comecei a forçar-me a pensar por mim e não através das lentes exteriores. Comecei a sentir uma certa aversão ao digital e a procurar pensar e refletir sobre formas de como posso fazer parte deste comboio digital sem sentir que quero saltar dele.

No meio disso tudo, o meu trabalho de freelancing cresceu para áreas de web development e hoje integro competências que nunca antes tinha conseguido aplicar no meu trabalho.

O Nomadismo Digital Portugal foi ficando para trás no meio deste meu crescimento e aprendizagem. Tentei motivar-me para criar mais conteúdos aqui, fazendo um rebranding e adotando novas categorias de temas – sem resultado.

Nos últimos meses tenho olhado para projetos que ficaram em pipeline, como o re-lançamento do Free-lança (um dos cursos de maior sucesso do Nomadismo), a escrita mais regular de newsletters, ou ainda o desafio de vídeos diários no YouTube.

Percebi que a razão pela qual isto tudo ficou em espera foi porque já não me identifico com o projeto como ele é atualmente. As minhas várias tentativas de me motivar eram por medo de deixar para trás um projeto que me trouxe tanto, e que me “elevou” tanto enquanto pessoa e profissional. Medo de perder o reconhecimento e valorização.

Já não me vejo como nómada, já não me vejo como alguém que tem razão absoluta nisto de trabalhar remotamente como freelancer. Quero ajudar as pessoas a questionar mais – não quero propriamente trazer respostas. Quero ser mais Krystel e menos projeto (não tens noção da quantidade de emails que recebo a achar que o Nomadismo é uma equipa de dezenas de pessoas ou de criativos!).

Se nos últimos tempos tenho contado com o apoio do Ericelmo (na assistência virtual e gestão de emails) e da Ana Viegas (na revisão), a verdade é que o Nomadismo sempre fui eu e eu apenas. E acredito que, mesmo com a dimensão que o projeto ganhou, é importante saber quando devemos parar. E este projeto, nos moldes que existe, já não faz sentido para a pessoa que eu sou.

Mas, se chegaste aqui, se bem te lembras coloquei aspas no “acabou”. Deixa-me explicar-te o que tenho em mente.

O que vai acontecer ao Nomadismo?

  • Os artigos vão continuar disponíveis. Se os reescrever e mudar de endereço, eles serão redirecionados. Por isso, se gostas de algum artigo do Nomadismo ou o tens nos teus favoritos, podes continuar com eles – não vão a lado nenhum. Vou continuar a renovar o domínio todos os anos, e não planeio mandar o site abaixo.
  • A Comunidade do Nomadismo vai ser fechada.
  • Os produtos vão continuar disponíveis para compra até final de junho.

O que vais poder seguir a partir de agora

Eu adoro escrever, adoro partilhar reflexões, adoro aprender com quem me lê e aprender com o que preparo para ti. Já não me faz sentido fazê-lo num projeto como o Nomadismo, mas vou começar um projeto com o meu nome. Um blog, normal. E tu vais poder ver tudo.

Comprei o domínio krystel.pt e vou criar o meu blog por lá. Vou estar a gravar, em direto, essa criação toda e partilhar contigo – gratuitamente. É estranho termos chegado a um ponto onde é preciso dizer quando algo é gratuito e não quando é pago, não é?

Irei estar a fazer stream pelo Twitch ou pelo YouTube, ainda não decidi ao certo a plataforma. Basicamente, vais poder ver como vou criar o meu blog, como vou conectar o meu alojamento e domínios, o que uso nesse processo e tudo e tudo. Em vez de o fazer sozinha, vou partilhar tudo contigo em direto enquanto faço. Não há horas marcadas, não sei quando vou começar, vou fazê-lo quando quiser.

Voltar às origens de criar e aprender porque sim, não porque “preciso”.

Se queres ser notificado de quando vou começar a fazer isso, deixa aqui o teu email. Irei começar com essa aventura durante o verão.

O domínio nomadismodigital.pt irá tornar-se assim um “arquivo” de artigos e conteúdos que não fazem sentido de serem retrabalhados e republicados na minha casa pessoal.

Fim do Nomadismo Digital Portugal

Na realidade, o Nomadismo Digital Portugal nunca vai acabar. Sei que vai sempre existir em mim, nas experiências e amizades que me trouxe e nas pessoas que mudaram as suas vidas por causa de artigos e partilhas feitas aqui.

Obrigada a todos os que acompanharam e ajudaram o Nomadismo Digital Portugal. Desde a quem participou em eventos, cursos e workshops, a quem às vezes apenas com um simples comentário ou email partilhou conhecimento que fez com que eu e outras pessoas melhorassem – este projeto provou-me que a Internet é um sítio absolutamente incrível.

Espero continuar a contar com a tua presença, partilhas e reflexões no futuro. Se há coisa que me faz continuar a estar presente na Internet enquanto “criadora” de conteúdos, são pessoas como tu que querem aprender e refletir melhor, todos os dias.

Abraço nómada,

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Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde estuda Futures Thinking e reflete, demasiado, sobre o futuro.