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Acredito no poder do trabalho remoto. Acredito no digital como força de nos empoderarmos, o digital já não é uma opção e é o que permite que tenhamos acesso à informação em tempo real e que sejamos expostos a realidades e acontecimentos que já existiam, mas que não eram filmados.

Acredito no trabalho remoto como forma de aumentar a diversidade em todas as áreas profissionais1. Acredito no trabalho como algo baseado no valor, e não nos canudos e em aprendizagens que ficam estáticas numa determinada fase das nossas vidas e que não são atualizadas. Acredito que o digital abre-nos as portas para sermos reconhecimento pelo que fazemos, e não pela faculdade onde andámos.

Diferenças no trabalho remoto

Mas o trabalho remoto não é hoje para toda a gente2. O trabalho remoto, mesmo depois do surto do coronavírus3, é ainda algo restrito a pessoas com mais educação certificada. Falo de educação certificada, porque não me lixem: canudos e diplomas não são sinónimos de educação e de saber.

Por as empresas ainda terem políticas de recrutamento associadas diretamente a curriculum vitaes , isso faz com que se estime que, nos Estados Unidos, apenas 12% de pessoas que têm apenas o ensino secundário trabalhem remotamente, comparativamente a 37% licenciados e 42% com mestrados e formação mais avançada4.

Claro que isto leva à questão do acesso à informação e da própria aprendizagem do digital. Se nem todas as pessoas têm acesso às mesmas oportunidades profissionais, nem toda a gente acaba por ter acesso à mesma educação, nem toda a gente tem acesso a computadores e internet, nem toda a gente aprende a usar o digital como ferramenta de trabalho, e nem toda a gente consegue desenvolver competências que lhes permita ter um trabalho descentralizado.

O digital já não é uma opção – mas, com tantas outros aspetos da nossa sociedade, existe, mexe com a vida de todos, mas é controlado e utilizado apenas por algumas pessoas.

A exclusão digital é um problema grave – diria até, um dos mais graves da nossa geração, e que foi acentuado com a pandemia do COVID-19. Apesar de ter sido rapidamente varrido para debaixo do tapete como se não fosse real, várias crianças não têm forma de aceder às aulas da telescola porque não tinham internet, computador ou um tablet5 6.

E mesmo que tenhas apenas o ensino secundário (ou menos), se fores branco tens vantagem… tens privilégio, apenas por seres branco7. Achas isso normal? Se eu te dissesse que as pessoas de olhos azuis não são tão inteligentes que as de olhos castanhos, isso faria algum sentido para ti? Provavelmente não, certo? É uma caraterística física que não dita o que quer que seja… tal como acontece com a cor da pele. Aconselho-te a veres o trabalho da Jane Elliott sobre isto.

É aqui que reside o problema: isto é um racismo tão entranhado em tantas situações e arestas do nosso quotidiano que nós, brancos, já nem damos por ele. Nós que estamos atrás de um computador, a pregar o trabalho remoto como coisa boa e como algo que nos permite ir beber uns cocktails para a praia ou comer uma taça de açaí em Bali… é fácil para nós falarmos destas coisas.

Pausa para ler, para ouvir e para pensar como posso agir de forma diferente

Não vou publicar nada de novo no Nomadismo Digital Portugal nos próximos tempos porque não me faz sentido falar de trabalho remoto neste momento. Não quero, não me apetece e estou num momento em que preciso de me educar, de aprender, de evoluir enquanto pessoa e enquanto profissional. Preciso de parar, ouvir, ler, pensar e refletir em como posso ter um papel ativo na mudança – e isto começa por enfrentar tudo aquilo que cresci a achar que era o normal.

Não me faz sentido falar de negócios digitais, criação de blogs e ganhar dinheiro como afiliado, quando, no país onde moro (Estados Unidos), o COVID-19 matou três vezes mais negros que brancos8. Porquê? Porque os negros neste país não têm automaticamente o mesmo acesso à saúde que eu, mulher branca, tenho. Porque não têm acesso à mesma educação que eu, mulher branca, tive. Porque ocupam maioritariamente, e de longe, os empregos ditos “essenciais”9 – o que os torna mais expostos a apanharem o vírus. Ou seja, dão mais de si, e recebem muito, muito menos. E adaptando isto tudo ao trabalho remoto, menos de 1 em cada 5 americanos negros trabalham remotamente10.

Apesar de a minha aprendizagem neste momento estar muito focada nos Estados Unidos e em tudo o que se está a passar no país onde moro, deixo aqui várias referências sobre Portugal. O racismo e a desigualdade existe (e bem) em Portugal, e quanto mais rapidamente tivermos consciência de que somos racistas, enquanto pessoas e enquanto povo, mais rapidamente conseguiremos identificar as atitudes que precisam de mudar.

  1. ”Negro drama. Racismo, segregação e violência policial nas periferias de Lisboa”Revista Crítica de Ciências Sociais
  • Cresci na Margem Sul do Tejo e tantas, mas tantas vezes, me questionei porque é que existiam bairros. Cresci em Santa Marta, em Corroios, numa rua que vai (e não “ia”: ainda vai) dar para um bairro. Questionei-me porque é que eu vivia num prédio e, colegas meus da escola, viviam em bairros onde as ruas não são alcatroadas. O alcatrão acaba no fim da minha rua. Questionei-me, mas cresci a não questionar outros. A não ver isso como privilégio. Enquanto olharmos para Corroios, para a Quinta da Princesa, para o Bairro da Jamaica, para a Amadora, para Chelas, para a Buraca e para tantos outros bairros como coisas meio exóticas que não sabemos propriamente o que se passa lá mas também não queremos saber, não me lixem: somos racistas e separatistas.
  1. “Racismo no concelho da Amadora: onde reside o problema?”Público

“O debate que se seguiu à agressão a Cláudia Simões focou-se sobretudo no racismo institucional e na impunidade dos órgãos policiais (o que é, inegavelmente, um problema). Pouco se falou, no entanto, de um factor importante que conduz à exclusão social dos cidadãos negros, bem como imigrantes e cidadãos de etnia cigana, e que propicia o racismo em Portugal: a segregação residencial.”

  1. “Há uma preferência “óbvia” dos senhorios em arrendarem casa a brancos”Público
  2. “Dos afrodescendentes espera-se que não passem “da escolaridade obrigatória” – Uma sala de aula com filas atrás para os negros e à frente para os brancos. Uma professora com dificuldade em acreditar que a aluna merecia mesmo 18.Público

Associações e Organizações

Associações a quem podes fazer uma doação e que aceitam PayPal e/ou cartão de crédito (cria um no teu MBWay se não tiveres). Lê sobre o trabalho de cada uma, aprende, educa-te e apoia o que te fizer sentido:

Em Portugal

Nota: como em todos os conteúdos que lês, que te enviam e que te aparecem à frente, procura sempre mais informação, mais dados, mais contexto. Não formes a tua opinião com apenas uma foto, um vídeo, um depoimento ou uma amostra. Expande o teu leque de leitura, expande a tua perspetiva e bebe informação de várias fontes diferentes. E fá-lo para além das redes sociais: as redes sociais são construídas sob um algoritmo que serve para te apresentar conteúdo similar a ti e ao que segues: assim sendo, acabas por estar naturalmente exposto apenas a coisas que já estão dentro da tua bolha e esfera. Sai, usa o Google, pesquisa dentro das hashtags, usa o YouTube, envia mensagens a pessoas que sentes que são totalmente diferentes de ti e que te têm tanto a ensinar. Há um mundo lá fora pronto para te ensinar. “Educa-te. Tu não foste educado na escola. Foste doutrinado na escola. Agora usa o que aprendeste na escola para te educares” – Jane Elliott

“O racismo mata – então não tentem pôr lado a lado realidades que são incomparáveis” – Conceição Queiroz (link)


Fontes e referências

  1. “Remote work is the next diversity frontier” – Fast Company
  2. “Not Everybody Can Work from Home” – Inequality
  3. “Working from home reveals another fault line in America’s racial and educational divide” – Washington Post
  4. “American Time Use Survey” (2018) – BLS.gov
  5. “Há alunos e professores sem computador e Internet” – Jornal do Centro
  6. “Brasil tem 4,8 milhões de crianças e adolescentes sem internet em casa” – Agência Brasil
  7. “Em dez anos, 20% das queixas à Comissão contra a Discriminação Racial foram sobre situações laborais. Em circunstâncias iguais no emprego, há preferência pelos brancos, mostram estudos.” – Público
  8. “Black Americans dying of Covid-19 at three times the rate of white people” – The Guardian
  9. “Black workers overrepresented in essential work during coronavirus pandemic” – Axios
  10. “Empty pews and couples coping: Black Americans adjust, slowly, to working from home” – NBC News
  11. Ilustração que acompanha o post: @sacree_frangine
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