O que achas que é um original teu pode ser um pensamento de outra pessoa

Think - Pensamento Crítico - Pensamento e Ideia Original

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Conhecimento é ter uma noção, uma ideia, e é experienciar.

Sabedoria é saber, é pensar e é razão.

Porque é que estes dois conceitos são, na minha opinião, tão importantes para um profissional remoto?

Acredito que todos passam pelo primeiro estado, mas poucos conseguem desenvolver o segundo. É a diferença entre alguém que, à mínima alteração ou mudança no seu trabalho, fica com medo do futuro e alguém que, o que quer que aconteça, sabe que vai ficar tudo bem.

O conhecimento é um estado necessário para todos os profissionais. É o estado em que tentamos absorver as soluções e respostas que nos permitem experienciar algo. Se quisermos aprender a ter mais seguidores, vamos seguir e aplicar um conteúdo que nos promete isso. Se quisermos fazer um vídeo para o YouTube, vamos ver um tutorial e aplicar as instruções que nos passa.

Isto é importante e natural. Esta fase de aprendizagem direta através de conteúdos de outras pessoas é necessária para adquirir as bases técnicas para resolvermos uma dúvida ou vontade.

Não obstante, saberes apenas o mesmo que essa pessoa sabe vai deixar-te a saber precisamente o mesmo que essa pessoa. Vais ser apenas mais um.

Como não ser apenas mais um?

A forma de criares o teu posicionamento único e não acabares por ser substituído pelo mais recente profissional, serviço ou produto é desenvolvendo a sabedoria.

Se continuares a seguir constantemente apenas as instruções e fórmulas de outros profissionais, dificilmente vais desenvolver a tua sabedoria e muito menos a tua adaptabilidade enquanto profissional.

O saber técnico é menos importante do que o esforço individual empregado na adaptação desse conhecimento.

É importante aprender a mexer numa determinada ferramenta ou a implementar uma estratégia; mas é bem mais importante o esforço colocado no entendimento de como podes aplicar essa ferramenta ou estratégia ao teu trabalho.

No caso do digital, é passares ao passo seguinte da tua literacia digital. É desenvolveres o entendimento do funcionamento para além da resposta evidente.

Procurar uma resposta para um problema é procurar dependência. Num determinado estado, a dependência é necessária. Exemplos de quando essa dependência é necessária: quando precisamos de saber o significado de um determinado erro que aparece ao entrar no site. Ou quando procuramos um tutorial sobre como fazer uma animação no Photoshop. Aqui, estamos ativamente à procura de uma solução para um problema. E, se soubermos fazer boas pesquisas, vamos encontrar essa solução. Numa primeira fase, estamos dependentes da pessoa que escreveu o artigo ou que fez o tutorial para aprendermos. Qualquer pessoa pode adquirir conhecimento neste nível de dependência. O artigo ou o vídeo/tutorial estão ao alcance de qualquer pessoa.

O que vai diferenciar duas pessoas que têm o mesmo conhecimento técnico é a forma como aplicam e adaptam esse conhecimento. Esse é o segredo: o esforço colocado na aplicação e adaptação do conhecimento.

Se estás à espera de ser diferente seguindo fórmulas atrás de fórmulas sem te dares ao trabalho de pensar por ti próprio no momento da aplicação do que estás a aprender, estás a aplicar as respostas e o conhecimento de outras pessoas. Nada disso é verdadeiramente teu.

O conhecimento pode ser ensinado, mas a verdadeira sabedoria tem de ser desenvolvida. Duas pessoas podem ter o mesmo conhecimento, mas o que as vai diferenciar é a sua sabedoria.

Consciência do efeito “copiar-colar”

Sempre que tiveres um problema ou dúvida, usa e abusa do Google (ou de outro motor de busca da tua preferência – eu uso há já vários meses o DuckDuckGo ou o StartPage). Vê as soluções e os conteúdos criados por pessoas que já resolveram esse problema ou dúvida. Depois, vai mais fundo e além de entenderes a solução preocupa-te em entender o problema.

Muitas vezes procuramos as soluções sem entendermos o problema. Se não entenderes o problema, vais aplicar a solução num efeito de “copiar-colar” e vais ser apenas mais um.

Não me interpretes mal: mais uma vez, ficar temporariamente no estado de dependência (apenas consumindo e aplicando técnicas e fórmulas) é útil. No entanto, quando ganhas consciência desse estado, deves forçar-te a sair dele.

Os conteúdos de “5 coisas que tens de fazer para o teu site ser bem sucedido” ou “10 ideias de temas e tópicos para teres mais leitores e seguidores” podem ser interessantes numa primeira fase. Mas não é por acaso que são os tipos de conteúdos mais lidos. Quem os lê, aplica tudo o que está lá, acabando por criar um ciclo de mesmice total e não sai do mesmo sítio.

Força-te a pensar no que é, realmente, o teu problema. Ao leres uma fórmula ou resposta dada por outra pessoa (novamente, uma resposta online é uma resposta que pertence à outra pessoa, não a ti), pensa nela de forma crítica. Não a apliques apenas porque te parece bem ou porque o resultado que aquela pessoa alcançou é aliciante.

Sei que me vou repetir, mas, enquanto alguém que trabalha com venda e criação de conteúdo sobre o digital, sei que não há nada de errado em consumir conteúdos de outras pessoas. Pelo contrário. O problema está apenas quando não nos damos conta do lugar de dependência de conhecimento em que estamos. Com efeito, adotamos o que lemos como verdade, não nos questionamos sobre o que nos levou ali e a forma como aquela resposta se adapta ao que já sabemos e pensamos; não pensamos na melhor forma de adaptar esse conhecimento ao nosso trabalho e achamos que o que estamos a fazer é fruto da nossa sabedoria quando é apenas o reflexo de pequenas injeções de conhecimento. 

Basta de achares que não podes parar e fazer diferente

Chegar ao estado de sabedoria requer esforço e trabalho. O estado de sabedoria pede que pares e penses.

Ninguém quer parar. Quando se trabalha por conta própria, parar é visto como um perigo. Contudo, a realidade é que se parares ninguém te vai passar à frente ou roubar um cliente. Se parares e te deres ao luxo de procurar desenvolver a tua sabedoria para além do conhecimento supérfluo, vais ser tu a ficar à superfície, mais cedo ou mais tarde. 

Pessoalmente, gosto de pensar que estou aqui para a maratona e não apenas para o sprint inicial (misturar analogias de mar e terra no mesmo parágrafo, que sacrilégio para os puristas da escrita!).

Procurares desenvolver a tua sabedoria é a única forma de simplificares o que sabes. 

O perigo da dependência de terceiros no teu próprio trabalho

Conheço e deparo-me com muitas pessoas que trabalham com e no digital e que sentem que não percebem nada do que estão a fazer. Até vão conseguindo ter clientes, subscritores, leitores e seguidores, mas continuam com a convicção de que não percebem o que estão a fazer. Isto acontece porque estão a replicar em modo “chapa cinco” o que outras pessoas fazem e dizem para fazer; não estão a pensar no que estão a fazer.

Ao não procurarem a sabedoria, estão totalmente dependentes do conhecimento externo para sobreviverem. Isto não é empreendedorismo: é um trabalho de “copiar-colar”.

Não há outra forma de desenvolveres a verdadeira sabedoria sem ser querendo e parando. Vais perceber que tens muito conhecimento, mas que a forma de ligares tudo o que sabes tem de vir de ti. Há coisas que vão ficar de fora, mas a conjugação natural de tudo aquilo que és, sabes e tens é o que vai fazer de ti um profissional totalmente único e adaptado.

… mas espera, como desenvolver a verdadeira sabedoria?

O que me tem ajudado a desenvolver o meu pensamento crítico e a expandir a minha mente são, sobretudo, duas coisas: querer e aprender.

O querer não é apenas um querer superficial. Não vais conseguir investir tempo a procurar contraditórios do que estás a ler e a explorar se não quiseres muito. Não vais conseguir destruir as tuas certezas todos os dias e sentir-te a cada dia mais burro (mas com cada vez mais clareza sobre o que sabes e com vista naquilo que não sabes) se não quiseres mesmo. Tens de querer admitir para ti próprio que não sabes aquilo que não sabes e que tudo o que achas hoje e que tudo a que dizes “ponho as mãos no fogo por isto!” pode amanhã ser uma história do passado.

O aprender está relacionado com a humildade de que precisas de pensar com outras pessoas, com outras ideias e outros pensamentos. Não adotá-los como teus, antes aprender com eles. Ninguém tem ideias totalmente originais. Todas as nossas ideias e pensamentos têm raízes em alguma coisa, seja em filosofias, em conceitos ou em pensadores. É importante aprendermos o que nos faz sentido para alimentarmos essas aprendizagens.

Referências práticas (e resumo prático)

Deixo-te aqui algumas das minhas referências para desenvolveres o teu pensamento crítico, a tua originalidade e o teu pensamento único. Novamente, não bebas só delas: lê, aprende e vai à procura de mais e de diferente.

  • Farnam Street Blog – um dos melhores blogues e portais de conhecimento que conheço. Focado na questão dos modelos mentais, em conceitos filosóficos e em aprender a aprender.
  • Naval Ravikant – um dos pensadores americanos que leio regularmente. Aconselho-te a começar pelo livro gratuito que foi criado recentemente, o qual reúne pensamentos, citações e partilhas do Naval.
  • Paul Graham – os artigos do Paul Graham, fundador do Y Combinator, são bem interessantes, simples de ler e vão diretos ao assunto.
  • Melthing Asphalt – um blogue com artigos que fazem pensar sobre a sociedade e o comportamento humano.
  • Ness Labs – um blogue sobre neurociência aplicada aos temas da produtividade, aprendizagem ou, mais uma vez, modelos mentais.
  • Charisma on Command – um canal de YouTube com vídeos focados no carisma e na argumentação –– esta última, acredito ser uma das características essenciais para conseguires desenvolver pensamento crítico.

Os conceitos de modelos mentais e first principles mudaram literalmente a minha forma de encarar a aprendizagem. Se quiseres entender o que são, aconselho-te a começar por aqui:

No teu dia a dia, se quiseres desenvolver a tua sabedoria, sempre que estiveres a produzir, a fazer ou a criar alguma coisa, questiona-te:

  • Porque é que estou a fazer isso?
  • Porque é que estou a fazer desta forma?
  • Que outras formas haveria de fazer isto?

Estas perguntas vão permitir-te expandir a tua reflexão e pensamento sobre o que estás a fazer. Nunca há apenas um caminho para a mesma solução e se não consegues ver outros caminhos e estás completamente preso a essa solução é porque não entendes exatamente o que estás a fazer.

Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde estuda Futures Thinking e reflete, demasiado, sobre o futuro.

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6 respostas

  1. Mas este artigo foi tão certeiro para complementar o que tenho vindo a aprender ultimamente! Muito obrigada pelas palavras! Essas fontes hão de ser bastante úteis!

  2. Muito pertinente esta questão, sem dúvida!
    Vejo-me muitas vezes nesta dificuldade entre consumir conteúdo, aplicar e pensar de forma crítica. Exatamente porque, tal como escreves, um empreendedor nunca quer parar. Tem que estar sempre em cima do acontecimento, correndo o risco de procurar as soluções mais fora do que dentro. Esquecendo assim o seu bem mais precioso: a sabedoria, a cola que reúne as suas experiências, saberes, aprendizagens e que o tornam tão único.
    Grata pela partilha Krystel e por ajudares a fazer pensar!

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