Quem é responsável por resolver “o dilema social” e o que deve fazer?

The Social Dilemma - Dilema Social - Netflix
Índice

Neste artigo vou responder a uma pergunta colocada pela Krystel Leal, fundadora do Nomadismo Digital Portugal A pergunta, que serve de título do artigo, surgiu após um debate amistoso que tivemos na Comunidade sobre o documentário da Netflix The Social Dilemma.

Este documentário vem enfatizar o lado sombrio das redes sociais. O mundo digital é composto de coisas tanto positivas como negativas e as redes sociais não são exceção.

É perfeitamente normal se achares que está tudo bem. No geral, os benefícios que estas plataformas oferecem suplantam as coisas más que podemos encontrar dentro delas. Até aqui faz sentido concordar com a missão do Facebook: “Dar às pessoas o poder de construir uma comunidade e aproximar o mundo.

Contudo, nos próximos minutos quero abordar a forma como as redes sociais afetam o nosso comportamento e quais medidas que podemos tomar para atenuar os efeitos nefastos que têm vindo a desequilibrar o mundo – polarização política, fake news, suicídio de adolescentes, depressão, etc.

Do meu ponto de visto, existem 3 responsáveis: Estado, Empresa e Consumidor.

  • O Estado é responsável por preservar o bem-estar do Consumidor e regular a Empresa, apenas se houver necessidade;
  • A Empresa é responsável por comercializar produtos que não prejudiquem o bem-estar do Consumidor;
  • O Consumidor é responsável por aquilo que compra/consome.

Responsáveis

Estado

Da mesma forma que o Estado investe em campanhas contra o tabaco, este também deveria investir em campanhas que fomentam a literacia digital.

No caso do tabagismo, o governo foi mais além e determinou, segundo a Lei n.º 109/2015, que as embalagens de tabaco para fumar têm de conter texto e/ou imagens que promovam a redução do consumo.

Outro tipo de abordagem são as campanhas contra a violência no namoro que procuram educar a população, especialmente a camada mais jovem.

Relativamente à educação no ensino público, este ano tivemos uma polémica à volta da disciplina Cidadania e Desenvolvimento. Como o tópico deste artigo não se trata de discutir os juízos de valor das pessoas, vou-me focar apenas no plano curricular desta disciplina.

Após consultar um documento da Direção-Geral da Educação – podes ver aqui – percebi que esta cadeira é obrigatória no 1° ciclo do ensino básico e facultativa no 2° e 3° ciclo do ensino básico, consoante a escola. Aborda-se direitos humanos, literacia financeira, saúde, entre outros temas, mas não existe um único tópico dedicado a literacia digital ou que, pelo menos, transmita essa ideia.

Sendo assim, podemos assumir que existe o risco do aluno ser leigo em matérias de cidadania digital, pelo menos, até o 9° ano (15 anos de idade). Como falo na terceira parte Consumidor, a ausência de formação nesta área pode gerar consequências trágicas.

Ao mesmo tempo, os líderes políticos devem melhorar a sua literacia digital e trabalhar em conjunto com organizações especializadas. Caso contrário, corre-se o risco de criar regulamentos enviesados (bias). Não obstante, estes regulamentos devem evitar gerar fricções no dinamismo do mercado.

Os nossos líderes não podem ter uma abordagem desinformada como vimos em determinados momentos durante a sessão de depoimento de Mark Zuckerberg no Congresso americano em abril de 2018. Ouviu-se perguntas como:

  • Quantos botões Gosto do Facebook existem em páginas web que não pertencem ao Facebook?” – Debbie Dingell, Representante pelo Estado do Michigan
  • Então, como você sustenta um modelo de negócio no qual os usuários não pagam pelo seu serviço?” – Orrin Hatch, ex-Senador pelo Estado do Utah
  • Se eu estiver enviando e-mails no Whatsapp, os seus anunciantes serão informados?” – Josh Hawley, Senador pelo Estado do Missouri
  • O Facebook vai oferecer a todos os seus usuários a opção de partilharem os seus dados privados com terceiros?” – Anna Eshoo, Representante pelo Estado da Califórnia
  • Alguém poderia ligar para si e dizer “eu quero ver os ficheiros de John Kennedy” ?” – John Neely Kennedy, Senador pelo Estado do Louisiana

Esta falta de conhecimento contribui para a disseminação de fake news. Para combater esta epidemia global existe a rede mundial de fact checkers IFCN.

Em Portugal, temos o jornal Polígrafo, que se dedica principalmente a verificação de factos, e a parceria entre o jornal Observador e o Facebook. E mais recentemente, Observador e TVI lançaram a rubrica “Hora da Verdade”. Todos esses projetos servem para combater a desinformação e as fake news.

Empresa

Enquanto agente económico, o icónico economista Milton Friedman defendeu que “existe uma e apenas uma responsabilidade social da empresa – usar seus recursos e se envolver em atividades destinadas a aumentar seus lucros, desde que permaneça dentro das regras do jogo, ou seja, se envolve em competição aberta e livre sem enganar ou falsificar.

No entanto, no mundo atual espera-se que as empresas sejam sustentáveis e ofereçam melhores produtos aos seus clientes. Esta evolução do mercado é explicada por Philip Kotler, professor emérito de Marketing Internacional na Kellogg School of Management:

  • Marketing 1.0 –é sobre lucrar alcançando a mente das pessoas e oferecendo um serviço de boa qualidade.
  • Marketing 2.0 – “conhecer melhor seus clientes e seus hábitos para assim fabricar e vender produtos e serviços que atendam melhor suas necessidades.
  • Marketing 3.0 – “as empresas não estão apenas interessadas em vender seus produtos mas também em fazer do mundo um lugar melhor.
  • Marketing 4.0 – “consolidação do mundo digital e da necessidade das empresas estarem presentes também nesse ambiente. Desta forma, somam-se aos demais conceitos a ideia do relacionamento próximo e personalizado com os consumidores, assim como o uso de dados.

Isto significa que cabe aos empresários comercializarem produtos éticos. Com isto quero dizer que as redes sociais não devem manipular os seus usuários.

Nesta senda, é importante distinguir dois conceitos: manipular e influenciar. Apesar das semelhanças, quem manipula aproveita-se da fraqueza dos outros. Enquanto quem procura influenciar age de forma transparente.

Com base nos testemunhos apresentados no documentário The Social Dilemma, ficámos a conhecer que as empresas tecnológicas aplicam técnicas de Design Persuasivo em seus produtos. Por outras palavras, estas empresas tencionam alterar o comportamento dos usuários.

Ficámos a saber que ações repetitivas e aparentemente inofensivas como fazer scroll e refresh são premeditadas. Segundo Joe Toscano, ex-Consultor de Design de Experiência na Google, estas ações geram um efeito psicológico chamado Reforço Intermitente Positivo.

Tu não sabes quando vais conseguir ou se vais conseguir alguma coisa, como se fosse as slots em Las Vegas. Não basta tu usares o produto conscientemente. Eu quero cavar mais fundo no tronco cerebral e implantar, dentro de ti, um hábito inconsciente para que tu sejas programado num nível mais profundo. Tu nem dás conta.” – Tristan Harris, ex-Designer de Ética na Google

Tim Kendall, ex-Diretor de Monetização no Facebook, define o modelo de negócio da seguinte forma: “Vamos pensar como conseguir o máximo de atenção possível dessa pessoa. Quanto tempo podemos fazer com que tu gastes? Quanto tempo da tua vida podemos obter de ti?“.

Consumidor

Neste triângulo, o Consumidor é o principal elemento.

Primeiro, ninguém é obrigado a usar redes sociais.
Segundo, existem outros meios (email, chamada telefónica, fórum, contacto direto, etc) para conhecer novas pessoas, consultar notícias, comunicar com a família e amigos, colaborar com colegas, etc.

Assim como o Consumidor é responsável por aquilo que decide assistir na televisão, este deve assumir a mesma responsabilidade quando usa redes sociais.

O Consumidor é igualmente encarregado de seus dependentes. Por exemplo, são os pais que têm de regular o tipo de entretenimento que os filhos consomem.

O nr 8 do artigo 41°-A da Secção III da Lei da Televisão diz o seguinte: “Não é admitida a apresentação, durante a exibição de programas infantis, de qualquer tipo de mensagens comerciais susceptíveis de prejudicar o desenvolvimento físico e mental dos menores, designadamente as relativas a alimentos e bebidas que contenham nutrientes e substâncias com um efeito nutricional ou fisiológico cuja presença em quantidades excessivas no regime alimentar não é recomendada.

Ora, o facto de um produto prejudicar a saúde das crianças, não significa que seja impedido de aparecer na TV. É o caso das bebidas gaseificadas que contêm alto teor de açúcar. Quem garante que estas bebidas jamais vão surgir em programas infantis? Seja como for, continua a ser obrigação dos pais vigiar o que os filhos assistem.

E embora raramente se fale dos Deveres do Consumidor, ao contrário dos Direitos que são fervorosamente defendidos e inclusive estão consagrados no artigo 60° da Constituição da República Portuguesa, não nos podemos descorar dos nossos deveres.

No setor energético refere-se o dever de consciência crítica. Entidades como a Cooperativa de Electrificação A LORD e a Galp Gás Natural Distribuição afirmam que este princípio está espelhado na legislação da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).

“Dever de consciência crítica: os consumidores têm o dever de questionar, emitir opiniões e exigir o cumprimento dos seus direitos, manifestando o reverso do seu direito de participação e de reclamação junto dos agentes dos sectores da electricidade” – Cooperativa de Electrificação A LORD

Vejamos a seguir o que o painel de comentadores do documentário pensa sobre menores de idade usarem redes sociais:

Observe que muitas pessoas na indústria de tecnologia não dão esses dispositivos aos seus próprios filhos.” – Tristan Harris, ex-Designer de Ética na Google

Os meus filhos não usam nenhuma rede social. É uma regra.” – Alex Roetter, ex-Vice-Presidente Sénior de Engenharia no Twitter

Estamos obcecados com isso. (…) E não deixamos que os nossos filhos tenham realmente qualquer tempo de ecrã.” – Tim Kendall, ex-Diretor de Monetização no Facebook

Portanto, a primeira regra é todos os dispositivos fora do quarto em um horário específico todas as noites. (…) A segunda regra é nenhuma rede social até o ensino médio. (…) E a terceira regra é combinar com o seu filho o número de horas.” – Jonathan Haidt, professor de Liderança Ética na Stern School of Business

A preocupação dos pais é legítima e tem vindo a ganhar relevo nos últimos anos. Por exemplo, em 2019 uma jovem suicidou-se após questionar seus seguidores no Instagram. A jovem de 16 anos fez uma sondagem que perguntava se ela devia continuar a viver.

Outro caso chocante em 2017 foi o suicídio de Molly Russel aos 14 anos. Apenas após a morte da jovem é que a sua família veio a descobrir os posts de suicídio e automutilação que ela exibia no Instagram.

É mesmo possível resolver “o dilema social”?

Claro que sim! Embora esteja a procura da resposta (e admito que é realmente complexa), tenho a certeza disto: se nós somos capazes de implementar o distanciamento social por livre e espontânea vontade, então nada nos impede mudar as nossas práticas no digital. E se somos capazes de resolver conflitos armados, então saberemos resolver “o dilema social”.

Lembra-te que a decisão final é sempre individual. Logo, cabe a cada um de nós – consumidores, empresários, políticos, professores, etc – contribuir para melhores práticas no digital.

Com base nos vários pontos referidos acima, podemos aplicar pequenas mudanças no nosso dia a dia como:

  • Reduzir o uso de redes sociais;
  • Verificar a veracidade de notícias sensacionalistas;
  • Investir na literacia digital;
  • Controlar o que as crianças assistem e publicam na internet;
  • Usar outros meios de comunicação digital (por ex. fóruns)

Acreditas na mudança?

Não? Bem, se ainda não fui capaz de te convencer, então pensa nesta mensagem do Dr. Jordan Peterson, professor de Psicologia na Universidade de Toronto:

A maneira correta de consertar o mundo não é consertando o mundo. Não há razão para supor que tu estás à altura dessa tarefa. Mas tu podes-te consertar. Não vais magoar ninguém fazendo isso. E assim, pelo menos, tornarás o mundo um lugar melhor.


Artigo escrito pelo Ericelmo Augusto. O Ericelmo é Freelancer em Marketing Digital, licenciado em Comércio e Negócios Internacionais (ISCAL ) e aluno do Mestrado em Marketing Digital (Universidade Europeia). Podes conectar-te e encontrá-lo no LinkedIn.

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