Trabalho remoto: a história, a evolução e o futuro

Este site já não está a ser atualizado. A informação deste artigo pode já não ser atual.

Índice

O trabalho remoto é a minha forma de trabalhar desde 2015 e tem sido incrível ver o crescimento desta tendência profissional. Apesar de ter tido os holofotes dirigidos para ele por causa da quarentena e do distanciamento social exigidos durante a pandemia do Covid-19, o trabalho remoto não é uma invenção ou algo adotado apenas como adaptação ao coronavírus. A história do trabalho remoto começa bem antes disso.

A valorização das competências antes da revolução industrial

Revolução industrial? Como assim? É verdade: é possível apontar a origem do trabalho remoto ao século XVIII, por mais estranho que isso possa parecer.

Se virmos bem, antes da revolução industrial, muitas eram as pessoas que trabalhavam a partir de casa. Pensar nas séries e filmes que vemos que representam essa altura faz-nos pensar imediatamente nos carpinteiros, nos ferreiros, nos padeiros, nos oleiros, etc.

Mas… e se formos mais longe com esta reflexão? E se pensarmos nos humanos primitivos que não tinham um local de trabalho? Que faziam o trabalho independentemente do local onde estavam, fosse isso caçar, cultivar ou fazer trocas comerciais?

O trabalho associado apenas e só aos resultados e às competências não é algo novo ou que tenha aparecido com a Internet.

A revolução industrial, ao empurrar as pessoas para as fábricas e empresas, afastou as pessoas de uma tradição de prestação de serviços que está presente desde muito cedo na história do ser humano. Além disso, trouxe um modelo linear, repetitivo, segmentado e previsível1 que acabou por formatar a escola (pois foi preciso criar pessoas prontas para trabalharem nas fábricas) e o sistema de trabalho.

O digital traz desafios e sobretudo uma disrupção. É que hoje temos um modelo que é precisamente o contrário do anterior: não é linear, requer várias e diferentes competências, é interconectado e, sobretudo, imprevisível.

Vivemos numa época em que se otimiza tudo, o que cria oportunidades para novas vivências e experiências em todas as arestas e pilares da nossa vida.

1973 – a origem do nome teletrabalho

Pensa-se que a palavra teletrabalho, usada tantas vezes, sobretudo na língua portuguesa, nos últimos tempos, começou a ser utilizada na língua inglesa em 1973: telecommuting2. Jack Nilles estava a trabalhar remotamente para um sistema de comunicação da NASA e começou a dizer às pessoas que fazia telecommuting; e a palavra pegou.

Em 1979, Frank Schiff escreveu um artigo para o jornal The Washington Post intitulado Working From Home Can Save Gasoline (Trabalhar a partir de casa pode fazer poupar gasolina). Se hoje isto ainda é uma questão (que tanta gente ainda não encara como possível e verdade), imagina na altura.Este artigo marca o início da conversa à volta do trabalho remoto.

Em 1980 foi, inclusive, organizada uma conferência sobre teletrabalho.

Também nos anos 80 assistimos a empresas privadas a adotar o trabalho remoto. A empresa americana IBM, por exemplo, equipou várias casas de funcionários com sistemas de terminais de comunicação remotos. O curioso é que a IBM, que, em 2009, tinha mais de 386 mil funcionários a trabalhar remotamente, decidiu, em 2015, aumentar o número de escritórios físicos e levar os funcionários para os escritórios3.

Em 1992, o Congresso americano autorizou a reserva de 5 milhões de dólares para:

  • Estabelecer centros de teletrabalho na área da cidade de Washington D.C;
  • Promover e implementar o teletrabalho dentro do governo federal.

Um ano depois, aumentou para 6 milhões de dólares a reserva para o programa que tinha como ambição equipar as infra-estruturas governamentais para o teletrabalho4.

Novo milénio – a mudança nos anos 2000

Com o desenvolvimento da Internet, da comunicação digital e das plataformas e redes sociais, o trabalho remoto também se tornou cada vez mais presente.

Contudo, devemos pensar no trabalho remoto numa amplitude de influência para além da tecnologia. Uma das coisas que senti em 2015, quando decidi criar a minha atividade profissional remota, foi a associação constante à tecnologia. É certo que ao trabalhar na área do marketing digital (área na qual trabalho) parece mais “fácil” adotar o trabalho remoto, mas a verdade é que o trabalho remoto não é reservado a áreas da tecnologia.

Qualquer tipo de trabalho terá um componente digital. Isso não significa que todas as pessoas tenham que se tornar engenheiros informáticos; a tecnologia digital pode, na verdade, levar competências a uma população subcapacitada graças à facilidade de uso e de acesso à tecnologia. – Satya Nadella, CEO da Microsoft (Fórum Económico Mundial, 2016, Davos)

Digitalização da comunicação dentro das empresas. Digitalização na gestão administrativa (olá cartão do cidadão que permite fazer tantas coisas online). Digitalização dos bancos (com o aparecimento de bancos totalmente virtuais). Digitalização das compras. Digitalização da educação. Digitalização dos eventos. Enfim, poderia continuar.

É preciso destruir o conceito de que o trabalho remoto (de forma voluntária, não da forma abrupta e obrigatória que aconteceu com a pandemia) é apenas para informáticos, designers e assistentes virtuais. É urgente aumentar a adaptabilidade individual ao digital; e fazer entender que o digital já não é mesmo uma opção. Para além disso, qualquer que seja a tua área de interesse, se souberes materializar as tuas competências num serviço, poderás exercer uma profissão “sem título” mas que te permite ser feliz profissionalmente.

O trabalho remoto não afeta apenas e só o trabalho

O trabalho remoto afeta e continuará a afetar cada vez mais áreas profissionais, sociais e até culturais.

Contexto tecnológico

É certo que não podemos falar de trabalho remoto separando-o do contexto tecnológico. Hoje, para trabalhar remotamente é preciso um dispositivo como um computador, tablet ou smartphone e uma ligação à Internet.

O aparecimento massivo, desde o final dos anos 90, início dos anos 00, de redes sociais e aplicações que permitem uma comunicação instantânea e muitas vezes através de vídeo foi o incentivo necessário para que o trabalho remoto fosse adotado por milhões de pessoas.

O aumento do trabalho sem local fixo permitiu inovações tecnológicas, assim como o melhoramento tanto da comunicação simultânea como da comunicação assíncrona. O trabalho remoto permite que as pessoas procurem soluções para problemas totalmente novos, levando à inovação e à criação de ferramentas, produtos e serviços totalmente disruptivos.

Contexto ecológico

Segundo um Inquérito à Mobilidade nas Áreas Metropolitanas do Porto(AMP) e de Lisboa (AML), realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2017, quem vive nas grandes cidades pode perder em média mais de uma hora em transportes.

Se tivermos em consideração que a gasolina em Portugal é uma das mais caras da Europa5, podemos associar a adoção do trabalho remoto não só à poupança de tempo (o nosso bem mais precioso) como também à poupança de dinheiro, refletindo-se inclusive na ecologia.

A nível ecológico, conduzir um carro está associado diretamente ao uso de combustíveis fósseis. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a poluição do ar é a causa de 4,2 milhões de mortes por ano6.

Mesmo que usássemos sempre um carro elétrico, a verdade é que existe uma pegada ambiental muito grande na produção do carro em si, além da própria produção de energia necessária para o carro.

Nesse sentido, recomendo muito a leitura do livro Vida Lixo Zero,de Ana Milhazes, autora do projeto Lixo Zero Portugal e do blogue Ana, Go Slowly, que tem um capítulo inteiro dedicado a esta questão da deslocação e meios de transporte.

Poderia simplesmente dizer-lhe para arranjar uma bicicleta, vender o seu carro e passar a andar de transportes públicos. (…) Infelizmente (ou não), a vida não é tão linear e não podemos ser assim tão radicais por variadíssimas razões, portanto teremos de adaptar o ideal às necessidades de cada um. Porque não começar por perceber as suas reais necessidades? – Vida Lixo Zero, Ana Milhazes

Associado a esta questão enérgica, trabalhar remotamente também pode permitir muitas poupanças às empresas. Durante o período de isolamento da pandemia do COVID-19, notaram-se nítidas poupanças no que diz respeito à energia e ar condicionado nos escritórios7.

Contexto laboral

O trabalho remoto é a chave para a contratação de talento, no verdadeiro sentido da expressão. Falar de contratação de talento sem falar de trabalho remoto é incoerente, pois se queremos o verdadeiro talento não podemos procurá-lo apenas em Lisboa ou no Porto. Poderemos, eventualmente, encontrar o melhor nessas cidades, mas talvez não seja o melhor na área.

Ao existir a possibilidade de contratar a melhor pessoa para um determinado trabalho ou cargo, se tivermos de obrigar essa pessoa a mudar-se para a nossa cidade, a arranjar vistos ou a lidar com burocracias complexas de residência, isso pode ser um grande entrave à contratação.

Mesmo que o grupo de trabalho seja local e pequeno, é preciso que se convença as pessoas realmente qualificadas a querer trabalhar numa empresa. O trabalho remoto e a flexibilidade são aspetos centrais para captar ou reter pessoas que querem mesmo trabalhar numa empresa, até porque cada vez mais as pessoas colocam as suas motivações pessoais também como um ponto de avaliação para aceitarem ou ficarem num determinado emprego.

No entanto, acho importante ressalvar que não acredito que o trabalho remoto represente algo que toda a gente queira, procure ou deseje. Afinal, somos todos pessoas diferentes, com necessidades sociais e profissionais diferentes.

Não obstante, é inegável a importância de colocar o trabalho remoto como um benefício da empresa, pois os trabalhadores procuram ser valorizados enquanto pessoas e profissionais.

[A] flexibilidade no trabalho é percecionada como um benefício importante, mas como algo suplementar ou complementar, pelo qual os trabalhadores não parecem dispostos a fazer trade-offs.Flex Portugal Estudo

Contexto social

Para além das vantagens “clássicas” apontadas anteriormente , é também importante destacar o facto de o trabalho remoto promover a diversidade na contratação8.

Para mim, esse alcance (que não é encarado por muitas empresas com a devida ambição e preocupação) é uma das maiores vantagens do trabalho remoto.

Com efeito, a diversidade é o que vai fazer com que as empresas se mantenham atualizadas e competitivas. Os elevados níveis de diversidade estão diretamente associados à inovação9, pelo que quantas mais pessoas diferentes uma empresa tiver melhor essa empresa (e as pessoas que lá trabalham) vai estar adaptada ao futuro do trabalho.

Neste contexto, quando me refiro a diversidade falo especificamente de diversidade de backgrounds, de vivências e de aplicabilidades de competências. Ao expandirmos a rede de contratação, expandimos também a bolha de uma determinada cidade, faculdade ou meio académico, onde as pessoas têm vivências e experiências pessoais (e, consequentemente, formas de trabalhar) semelhantes.

Por valorizar competências acima de títulos e resultados acima de processos, o trabalho remoto vai também exigir uma desconstrução do pensamento da empresa.

Numa altura em que tantas empresas falam em trabalhar remotamente, muitas são as pessoas que falam do trabalho remoto sem ter noção da perspetiva geral. Tal como todas as ações que tomamos, também esta tem de ser tida em conta num plano maior, que envolve perguntas que sempre foram feitas e cujas respostas hoje é necessário que sejam públicas:

  • Quais são os objetivos que a empresa ou o profissional quer atingir?
  • Quais são as métricas para medir a produtividade que se vão usar?
  • Quais são as métricas de sucesso ou insucesso a ter em conta?
  • Que processos de gestão vão ser implementados?
  • Como lidar com a possibilidade de os funcionários não terem uma boa ligação à Internet?
  • Que ferramentas são necessárias providenciar aos funcionários para trabalharem de forma concentrada, focada e produtiva a partir de casa?
  • Como empoderar os funcionários com conhecimento e informação para que tomem decisões e tenham comportamentos responsáveis no digital?
  • Como é que se vai monitorizar o trabalho e carga emocional do profissional?

Estas são apenas algumas das questões básicas que devem ser trabalhadas numa empresa; e para as quais, se te candidatares e ambicionares trabalhar remotamente, deves conhecer as respostas.

Contexto emocional

A última pergunta na lista anterior foca-se na carga emocional, que é um aspeto importantíssimo no estudo e reflexão sobre o trabalho remoto.

Quando se trabalha remotamente, algo a que é preciso dar muita atenção é ao lado emocional.

Trabalhar sozinho depois de passar anos a trabalhar lado a lado em equipa é um choque. Quando falo em trabalhar sozinho não falo propriamente de isolamento: os espaços de cowork e de trabalho partilhado são peças essenciais e que devem fazer parte da rotina do trabalhador remoto. No entanto, o contacto social é diferente do contacto de equipa e de colegas. Ter com quem conversar e falar sobre o nosso trabalho é um estímulo diferente daquele proporcionado numa comunicação com pessoas no geral.

Numa época em que em Portugal ouço falar-se de burnout nas empresas, aqui em Silicon Valley, e em círculos de profissionais de empresas que já têm o trabalho remoto implementado há vários anos, o tema é cada vez mais o burnout no trabalho remoto. A falta de contacto humano e presencial torna mais difícil a monitorização de situações de burnout.

A comunicação é, por isso, um elemento que deve ser central nos processos de trabalho remoto. Uma boa comunicação pode ajudar a monitorizar situações de stress emocional e é a chave para o trabalho não parar e o alcance dos resultados continuar a ser trabalhado.

No entanto… implementar processos e políticas de comunicação remota, principalmente de uma forma tão rápida e forçada, não é fácil.

Comunicação: o sucesso ou desastre no trabalho remoto

Fico chocada quando ainda assisto a empresas a comunicar apenas por e-mail (entre os seus funcionários, a nível interno). Ou por WhatsApp. Ou, pior, por redes sociais! A comunicação interna de uma empresa tem de ser trabalhada de uma forma muito própria e… interna.

É essencial que a comunicação em ambiente remoto seja feita de uma forma inclusiva. Nenhum membro da equipa deve sentir que está a perder algo ou a ser deixado de lado apenas por não estar presente fisicamente no escritório.

Existe a tendência de, ao se trabalhar remotamente, se falar de comunicação digital, mas também é importante falar-se da comunicação longe do ecrã. Numa altura em que surgem cada vez mais estudos que demonstram que a tecnologia fomenta a solidão10 (e estando a solidão diretamente relacionada com o trabalho remoto [já que 20% dos trabalhadores remotos apontam a solidão como o maior desafio de trabalharem remotamente11]) é necessário pensar em processos que também lidem com este aspeto.

Aliás, a componente social é uma das principais razões pelas quais acho que é importante lutarmos para que o trabalho remoto seja uma alternativa e uma forma normal de se trabalhar e não a norma ou uma sobreposição ao modelo presencial.

Nem todas as pessoas gostam de estar sozinhas. Nem todas as pessoas são mais produtivas sozinhas. E nem todas as pessoas querem usar a tecnologia para socializarem mais.

É por sermos todos diferentes e por a tecnologia permitir criar cenários adaptáveis que deveríamos olhar mais para o trabalho remoto de uma forma adaptável e não imperativa – lê mais sobre esta minha posição neste artigo.

Conclusão

Numa altura em que o número de horas passadas no escritório diminui12, há cada vez mais pessoas a admitir que mudariam de emprego se a nova oportunidade profissional oferecesse flexibilidade13.

O trabalho remoto não precisa de ser a norma, mas precisa de ser uma alternativa em todos os setores.

Negar a possibilidade de um funcionário trabalhar a partir de casa (ou de qualquer outro lugar do mundo) é centrar a política e a cultura da empresa nos seus interesses e não na produtividade e na retenção dos seus funcionários.

O trabalho remoto não é uma tendência. Não é uma moda. É “apenas” uma forma de trabalhar.

Eu acredito no potencial de se dar este benefício, esta escolha, esta alternativa a todos os trabalhadores. Eu acredito no trabalho remoto como uma forma de as pessoas conquistarem adaptabilidade, o centro do trabalho e do que pretendemos alcançar enquanto sociedade.


  1. Reflexão inspirada no livro Vai lá e faz. Como empreender na era digital e tirar ideias do papel do futurista Tiago Mattos (link)
  2. “The Invention of Telecommuting” – Bloomberg (link)
  3. “IBM, remote-work pioneer, is calling thousands of employees back to the office” – Quartz (link)
  4. “Teleworking: A Fact Sheet” by Joanne B. Shore (link)
  5. “Portugal tem a 3.ª gasolina mais cara da Europa… antes de impostos!” – Auto Monitor (link)
  6. “Air pollution” – WHO (link)
  7. “Some Hidden Energy Costs Of ‘Working From Home’ During The Outbreak” – Forbes (link)
  8. “Why remote work is inclusion work” – Abstract (link)
  9. “Diversity Confirmed To Boost Innovation And Financial Results” – Forbes (link)
  10. “Text or Talk: Is Technology Making You Lonely?” – Forbes (link)
  11. “The 2020 State of Remote Work” – Buffer (link)
  12. “State of the American Workplace” – Gallup https://www.gallup.com/workplace/238085/state-american-workplace-report-2017.aspx
  13. “Estudo Flex: Flexibilidade do Trabalho em Portugal” (link)
Site | + posts

Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde estuda Futures Thinking e reflete, demasiado, sobre o futuro.