Trabalhar a Partir de Casa - A utopia do trabalho remoto com o Coronavírus: não é tão fácil como parece - Nomadismo Digital Portugal

A utopia do trabalho remoto com o Coronavírus: não é tão fácil como parece

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Trabalho remotamente desde 2015. Nessa altura, quando decidi que queria começar a trabalhar por conta própria e para clientes em Portugal, as pessoas olharam para mim como se eu tivesse enlouquecido. Trabalho remoto? Para Portugal? Estaria louca?

Nestes últimos cinco anos tive que lidar com vários comentários depreciativos em relação à minha forma de trabalhar, mas acredito que era mais associado a questões e dúvidas do que a propriamente uma crítica per se.

Por causa do Coronavírus, o trabalho remoto nunca foi tão falado. Tenho acompanhado com atenção o tema, mas é a primeira vez que escrevo um artigo sobre esta situação.

Apesar de eu ser uma promotora do trabalho remoto e de ter este projeto intitulado Nomadismo Digital Portugal, quero alertar para o cenário utópico no qual se está a pintar o trabalho remoto.

Eu defendo, como falei em detalhe neste artigo, que não podemos dizer que o futuro do trabalho é o trabalho remoto.

Neste post partilho algumas reflexões sobre trabalho remoto, e também uma lista de ferramentas e referências sobre trabalho remoto que te convido a ver para expandires a tua mente sobre este tema.

A realidade do trabalho remoto

O trabalho remoto não é uma tendência. Não é uma moda. É “apenas” uma forma de trabalhar.

Tal como com a revolução industrial se começou a trabalhar mais em fábricas do que em campos, tal como com o aumento do setor terciário e de serviços se começou a trabalhar mais em escritórios do que em fábricas, com a tecnologia é natural que o modelo de trabalho se adapte à volta dela.

Mas tal como acontece com todas as mudanças, é preciso implementar as coisas com calma e com estrutura para que os resultados alcançados sejam os mais positivos.

O trabalho remoto inicialmente era algo diretamente relacionado às áreas da programação e tech. Afinal, a internet, a comunicação online e os negócios na cloud eram os mais diretamente associados a este modelo de trabalho. Mas hoje, com a adaptação de quase todas as áreas à tecnologia, é normal que grande parte das tarefas de muitos profissionais seja ou possa ser feita online.

Vamos por partes: o trabalho remoto permite coisas extraordinárias, tanto a nível humano, como para as próprias empresas.

Para além dos “clássicos” associados à poupança de recursos ou ao controlo mais direto do tempo e agenda individual, é importante também apontar para o facto de o trabalho remoto promover a diversidade na contratação1, algo que todas as empresas deveriam ter atualmente como preocupação central. Para mim, esse alcance é uma das maiores vantagens do trabalho remoto (e que não é levado, por muitas empresas, com a devida ambição e preocupação).

Mas numa altura em que tanta gente fala em trabalhar remotamente, o problema é que muitas são as pessoas que falam do trabalho remoto sem ter noção do plano geral. Como todas as ações que tomamos, esta também tem que ser dita em conta num plano maior.

  • Quais são os objetivos que a empresa ou o profissional quer atingir?
  • Quais são as métricas para medir a produtividade que se vão usar?
  • Quais são as métricas de sucesso ou insucesso a ter em conta?
  • Que processos de gestão vão ser implementados?
  • Como lidar com a possibilidade de os empregados não terem uma boa internet ou uma ligação estável?
  • Que ferramentas são necessárias providenciar aos empregados para trabalharem de forma concretada, focada e produtiva a partir de casa?
  • Como é que se vai monitorizar o trabalho e carga emocional do profissional?

Estas são apenas algumas das questões básicas que devem ser colocadas.

Quero focar-me um pouco mais na última. Algo que é preciso ter muita atenção quando se trabalha remotamente (sobretudo de uma forma tão brusca e pouco preparada como está acontecer agora) é o lado emocional.

Trabalhar sozinho depois de passar anos a trabalhar lado a lado em equipa é um choque. Numa época em que ouço em Portugal falar-se de burnout nas empresas, aqui em Silicon Valley o tema é o burnout no trabalho remoto. A falta de contacto humano e presencial torna mais difícil a monitorização de situações de burnout.

A comunicação é, por isso, um elemento que deve ser central nos processos de trabalho remoto. Uma boa comunicação pode ajudar a monitorizar situações de stress emocional, e é a chave para o trabalho não parar e o alcance dos resultados continuar a ser trabalhado.

No entanto… implementar processos e políticas de comunicação remota, principalmente de uma tão rápida e forçada, não é fácil.

Comunicação no trabalho remoto

Fico chocada quando ainda vejo empresas apenas a comunicar por email (entre eles, a nível interno). Ou por WhatsApp. Ou pior: por redes sociais!

A comunicação interna de uma empresa tem que ser trabalhada de uma forma muito própria e… interna.

É essencial que a comunicação em ambiente remoto seja feita de uma forma inclusiva. Nenhum membro da equipa deve sentir que está a perder algo ou a ser deixado de lado apenas por não estar presente fisicamente no escritório.

Nesta fase em que muitas equipas estão na totalidade a trabalhar a partir de casa, é uma excelente oportunidade para irem pensando de que forma é que é possível comunicarem de forma inclusiva e responsável se, no futuro, uma das pessoas quiser trabalhar remotamente.

Ao trabalhar-se remotamente fala-se de comunicação digital, mas também é importante falar da comunicação longe do ecrã.

Numa altura onde surgem cada vez mais estudos que mostram que a tecnologia fomenta a solidão2, e estando a solidão diretamente relacionada com o trabalho remoto (20% dos trabalhadores remotos apontam a solidão como o maior desafio de trabalharem remotamente3, é necessário pensar em processos também para lidar com isso.

Aliás, a componente social é uma das principais razões pela qual acho que é importante trabalharmos para que o trabalho remoto seja uma alternativa e uma forma normal de se trabalhar, e não uma sobreposição do trabalho tradicional.

Nem todas as pessoas gostam de estar sozinhas. Nem todas as pessoas são mais produtivas sozinhas. E nem todas as pessoas querem a tecnologia como forma de socializarem mais. E é por sermos todos diferentes e por a tecnologia permitir criar cenários adaptáveis, que deveríamos olhar mais para o trabalho remoto de uma forma adaptável e não imperativa – lê mais sobre esta minha posição neste artigo.

Trabalho remoto como imposição: não vai ser algo bom de se ver

Apesar de muitos defensores do trabalho remoto dizerem que o Coronavírus vai mostrar que o trabalho remoto é inevitável e que será o futuro do trabalho, eu discordo – e muito.

Posso estar enganada (ninguém pode saber o futuro, este é algo a ser desenhado e construído todos os dias, por cada um de nós), mas impôr práticas laborais que foram impostas literalmente sem preparação, vai fazer com que as pessoas percebam que é possível trabalharem a partir de casa… mas não vai ser algo que ajude à adoção rápida do trabalho remoto como uma alternativa nesses contextos.

Sem processos, sem guidelines por parte das empresas, e sem literacia digital e preparação dos empregados, os resultados desejados não vão ser alcançados por ambas as partes.

Eu acredito no trabalho remoto. Eu acredito no potencial de se dar este benefício, escolha e alternativa a todos os trabalhadores.

Mas o coronavírus, ao obrigar ao trabalho remoto de uma forma tão rápida, faz com que não exista confiança de parte a parte porque esta não foi trabalhada.

Não existem processos implementados, como falei acima. Não existe treino sobre as melhores ferramentas que funcionam para a empresa. Existem apenas decisões de última hora que não tiveram em conta fatores essenciais para que o trabalho remoto seja implementado com responsabilidade.

Dizer que o Coronavírus é bom para o trabalho remoto parece-me algo bastante ingênuo. No máximo, o que vai acontecer é que se vai ficar a saber que é possível trabalhar a partir de casa. E que não é preciso estar num escritório para se ter reuniões. Mas vai-se continuar sem saber como fazer isso sem afetar negativamente os resultados e objetivos desejados.

O que peço a todos os que trabalham remotamente já há vários anos, aos meus colegas remoters, e a quem já tem experiência remota em diferentes contextos, é que ajudemos com o nosso conhecimento e experiência mas sem pressionar. Sem tentar mostrar que “eu disse-te que seria o futuro” ou “já devias ter começado mais cedo”. Não é o momento para isso.

O momento é de tentarmos ajudar as empresas e trabalhadores a adaptar-se ao que está a acontecer de uma forma urgente e rápida. É preciso tentar minimizar os danos e problemas que vão acontecer pela adoção atabalhoada do trabalho remoto. Só depois, quando passar, devemos tentar ajudar quem quiser ser ajudado a implementar esta alternativa de trabalho.

Nota final: existem muitas empresas (e várias portuguesas) que já tinham começado a testar e a criar processos de trabalho remoto antes da propagação do coronavírus. Essas, graças à preparação prévia, estão certamente a implementar com responsabilidade esta prática.

Ferramentas que eu uso e recomendo para o trabalho remoto

Reuni centenas de referências de ferramentas neste board no AirTable. Podes consultá-lo e podes até copiar toda a tabela para a tua conta pessoal do AirTable. Partilha o link com quem procura soluções e ferramentas para trabalhar remotamente. Vou atualizando e reorganizando a tabela com frequência, então podes guardá-la nos teus favoritos e ires visitá-la sempre que precisares.

Abaixo, deixo as ferramentas que eu uso (ou já usei) e recomendo a título pessoal.

💬 Comunicação Interna // Escritório Virtual

👥 Reuniões

  • Zoom
  • Krisp (permite retirar o barulho de fundo em chamadas e video-conferências)

🗓 Gestão de Agendas // Preparação de Reuniões

🧮 Gestão de Projetos

📑 Documentos Colaborativos

  • G Suite (Google Docs) – Usa o seguinte código para teres 20% de desconto no plano G Suite Basic: R3ALCXNL3A6XPMK | ou este para 20% de desconto no plano G Suite Business: 63Q9647C6PLMFF9
  • Evernote

🖌 Design Colaborativo

🖥 Programação Colaborativa

🤔 Trabalho Colaborativo // Brainstorm

✍️ Assinaturas Digitais

🔐 Segurança

🗄 Armazenamento // Cloud // Partilha e Envio de Ficheiros

  • G Suite (Google Drive) – Usa o seguinte código para teres 20% de desconto no plano G Suite Basic: R3ALCXNL3A6XPMK | ou este para 20% de desconto no plano G Suite Business: 63Q9647C6PLMFF9
  • Dropbox
  • WeTransfer

📊 Performance // Métricas

🍻 Comunidades Offline

📲 Comunidade Online

🙏 Saúde // Bem-Estar

💪 Produtividade // Gestão de Tempo Individual

No board encontras também um separador com Guias e Referências sobre Trabalho Remoto.

Nota importante: lê sempre a politica de privacidade das ferramentas que usares no teu trabalho! A segurança é um tema que deve ser uma preocupação central de um trabalhador remoto.

As ferramentas que têm uma recomendação são ferramentas que eu uso (ou já usei) e que recomendo. Algumas destas minhas recomendações têm links de afiliado – se clicares num link desses e realizares uma compra, o site Nomadismo Digital Portugal ganha uma pequena comissão. Nenhum produto é aconselhado ou afiliado com o site sem ter sido testado e ser 100% recomendado. Nenhuma compra por um link afiliado tem um valor final inflacionado: o preço é o mesmo que se não passares por este link. Estes links permitem financiar a continuidade do site.


  1. “Why remote work is inclusion work” – Abstract
  2. “Text or Talk: Is Technology Making You Lonely?” – Forbes
  3. “The 2020 State of Remote Work” – Buffer
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