A minha vida sem Facebook e Instagram

Pessoa com o telemóvel a fazer scroll nas redes sociais - Como viver sem Facebook e Instagram? - Nomadismo Digital Portugal

Índice

No final de 2019 decidi afastar-me das redes sociais. Em junho de 2020 decidi apagar as minhas contas pessoais de Facebook e Instagram. A razão? Estavam a fazer de mim uma pessoa e profissional infeliz e frustrada.

Infeliz por ser colocada à frente de “vidas de sonho”1. Frustrada porque me deparava com o “sucesso” de pessoas com atividades similares à minha.

Custou-me quando me afastei do Facebook e do Instagram em dezembro. Nas duas primeiras semanas tinha muito o reflexo de desbloquear o telemóvel e clicar automaticamente na pasta onde tinha as aplicações. É uma loucura, porque comecei a dar-me conta de que não precisava de lá ir ver nada… era apenas instintivo, um hábito.

Como é a vida sem Facebook e Instagram?

Mais Tempo

Nos meses seguintes, apesar de a minha quantidade de trabalho não se ter alterado, comecei a notar que o meu dia tinha muito mais tempo. Quando observei em maior pormenor os meus dias, percebi que não era apenas o tempo que passava a fazer scroll nas redes sociais (que, comparando com pessoas que conheço, não era muito), mas sobretudo o tempo que perdia para voltar a concentrar-me ou focar-me depois de consumir passivamente conteúdos.

O fenómeno de alternância de tarefas (task switching) é estudado em psicologia e estima-se que estas alternações possam custar 40% do tempo produtivo de uma pessoa2. Agora pensa quantas vezes fazes uma pausa para ver o Instagram; podem ser cinco minutos a fazer scroll, mas o tempo gasto é bem maior.

Comunicação que interessa

Percebi também que comecei a falar mais com as pessoas que realmente me interessam. As pessoas que me são realmente próximas têm o meu número de telemóvel e começaram a comunicar de forma mais direta comigo.

Acabava por saber as coisas realmente importantes que se passavam na vida delas sem o ruído de saber o que almoçaram, em que praia foram dar um mergulho ou qual é a nova cor das suas unhas.

Querer diminuir o consumo de conteúdos deste tipo não implica deixar de os consumir. Continuo a consumir conteúdos deste tipo em momentos totalmente mortos. Já não tenho conta no Instagram, mas continuo a entrar pontualmente através do navegador para ver algumas contas de pessoas que me interessam.

Existe uma diferença entre consumir de forma ativa e consumir de forma passiva.

Consumo por interesse e não por curiosidade

No episódio 139 do podcast Officina, conversei com a Cláudia Fonseca sobre redes sociais e expliquei essa relação entre interesse e curiosidade.

O facto de teres de procurar o que queres consumir faz com que a tua ação seja feita por interesse e não por mera curiosidade. As redes sociais despertam curiosidade e não interesse. Não estamos a procurar informação de forma ativa, estamos a ser colocados à frente de conteúdos que nos despertam curiosidade.

Não usar as redes sociais no quotidiano tornou-me muito mais ágil na procura das coisas que realmente quero ler, ver e saber; e não coisas que uma empresa acha que devo consumir.

Continuo a estar atualizada sobre as áreas que me interessam. Todos os dias leio notícias, todos os dias passo tempo à procura de informações sobre tópicos nos quais quero expandir o meu conhecimento.

O que eu escolho ler, ver e ouvir é encontrado por mim, o que permite furar as minhas próprias bolhas sociais.

Mais consciência das bolhas sociais

Outra grande razão (talvez a maior) que me fez tomar esta decisão, e que me abriu as portas para explorar também um afastamento do Google3, foi a manipulação da minha opinião e visão do mundo.

O que é consumido passivamente nas redes sociais é conteúdo manipulado.

Por “manipulado” não quero dizer “alterado”. “Manipulado” é usado no sentido em que existe uma ação humana (neste caso, na criação de um algoritmo) que faz com que o que apareça nos feeds das redes sociais não seja aleatório. A nossa visão do mundo e da realidade é altamente condicionada por aquilo que nos é apresentado nas redes sociais. Ao consumirmos informação que já é opinião não podemos dizer que estamos informados; estamos, sim, posicionados de forma condicionada num lado da realidade.

Ao nos responsabilizarmos pelo que consumimos de forma ativa podemos controlar melhor o que usamos para formar as nossas opiniões. Irei partilhar mais conteúdos sobre este tópico, mas um conselho que deixo desde já é o seguinte: sempre que sentires que tens uma certeza sobre um determinado tópico, procura informação que destrua essa certeza. Certezas nunca são a solução para um pensamento crítico; procura antes construir clareza.

Mais consciência sobre a privacidade online

À medida que fui lendo e refletindo sobre o poder das redes sociais e das ferramentas online, a questão da privacidade online tornou-se um dos meus temas de leitura favoritos.

No ano passado já tinha devorado o Permanent Record, do Edward Snowden, (td: Vigilância Massiva, Registo Permanente, Editorial Planeta4, mas estes afastamentos das redes sociais levaram-me a um maior nível de reflexão.

Da manipulação de opinião ao controlo de decisões no quotidiano, as redes sociais têm um peso gigante nas nossas vidas. Ao manipularem a nossa visão do mundo, conseguem (através de manipulações psicológicas) que atuemos e nos comportemos de uma determinada forma.

“Using digital profiles to predict and influence our behavior is at the heart of Google’s and Facebook’s business models.”5

E isso é feito através da exploração massiva do nosso comportamento online, de dados e de informações que damos de forma voluntária e inconsciente (ou que nos são sugados de forma invisível).

Não estou a dizer que as redes sociais são as responsáveis pelos males do mundo, longe disso. As redes sociais também têm muitos aspetos positivos.

Como explico no ebook Redes Sociais vs Sites e Blogs: Quem ganha esta batalha?, as redes sociais começam por ser isso mesmo: redes sociais. Para conectar pessoas.

O problema é quando essa conexão ultrapassa o controlo individual. A conexão já não é nossa ou dos nossos amigos. É do anunciante que paga o valor de leilão mais alto. Ou da empresa que quer agradar a determinada ala política. Ou do guru que sabe que temos um problema para o qual precisamos desesperadamente da solução.

A falta de controlo da minha opinião, do meu pensamento, das minhas decisões e do meu comportamento foi e é algo que me faz refletir muito.

Com várias leituras e várias conversas em grupos de pessoas que se interessam por estes temas, percebi que era urgente aumentar a minha noção do que são, na realidade, as redes sociais e o que fazem e sabem sobre mim. Saber os princípios básicos permite refletir de forma completa e abrangente.

Esta noção só é possível dando um passo atrás e vendo as coisas do lado de fora. Parafraseando Nassim Taleb no seu livro Fooled by Randomness (td: Iludidos pelo Acaso, Círculo de Leitores), a ideia de a mera possibilidade de uma nova tecnologia ou rede social ser importante para as nossas vidas não deve suficiente para nos motivar a adotá-la.

Ou seja, o que Nassim Taleb sugere é que acabamos por estar motivados pelo medo de perder algo ou pelo sonho de ser um early adopter. Isso faz com que vejamos apenas o retorno positivo dessa mesma tecnologia e não o valor derivado da falta dela.

A única forma de saberes o que é a vida sem a influência das redes sociais é saindo delas. E vai por mim: a vida continua se não as usares.


  1. Entre aspas porque o sucesso nas redes sociais pode ser plástico. Desde o momento em que o que é mostrado parte de uma decisão individual, o conteúdo acaba descontextualizado de tudo o resto. E é esse resto que fica “de fora” que mostra, por vezes, que a pessoa não é assim tão diferente de nós e nem é assim tão “bem sucedida” (o que quer que isso queira dizer para ti, visto que o sucesso é um conceito individual).
  2. American Psychological Association (2006). Multitasking: Switching Costs. https://www.apa.org/research/action/multitask
  3. Irei partilhar mais sobre esta questão do Google, mas o Google está a ser uma questão bem mais complexa e que me está a levar para muitas aprendizagens.
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  5. Barth, B. – The New Yorker (2019). Big Tech’s Big Defector. https://www.newyorker.com/magazine/2019/12/02/big-techs-big-defector

Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde estuda Futures Thinking e reflete, demasiado, sobre o futuro.

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